sábado, 15 de janeiro de 2011

O lugar mais perigoso do mundo

Como tudo é relativo, o lugar mais perigoso do mundo está bem perto da minha cozinha, basta andar poucos passos. É o quartinho de bagunça, no qual eu guardo livros, papéis, documentos, ferramentas e... lembranças! Lá está a papelada do Sr. T, os seus livros, cartas, documentos, textos, enfim, todos os registros da sua vida. No começo, a solução foi tirar da minha vista tudo que pudesse avivar as lembranças. Como eu não podia mexer em nada, também não podia me desfazer e fui empurrando para o tal quartinho todas as coisas que estavam espalhadas pela casa. Estou aproveitando as férias para colocar ordem na casa, arrumei o meu armário na semana passada e agora só falta o bendito quartinho. Eu começo a arrumação animada, tipo "hoje vou dar um jeito naquela bagunça" e já consegui tirar um saco enorme de lixo de lá (só da minha papelada, é claro!). O problema é que quando eu começo a olhar cada papel, cada texto, cada foto, vou murchando como um balão, a angústia surge de forma intensa e nunca consigo concluir o trabalho.Ontem eu me dei conta de que, neste momento, o meu quartinho é o lugar mais perigoso do mundo. Acho que vou precisar de reforços para enfrentar mais esse desafio...

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O canto da sereia

Eu conheci o Sr. T em uma reunião de trabalho. Eu estava representando a minha empresa que ficava no Rio e meu papel naquele dia era apresentar os cursos da Educação Básica para adultos que utilizavam sites como apoio. Eu já tinha feito a mesma coisa várias vezes, em grandes empresas e em diferentes lugares. Nunca tinha vindo ao Nordeste e não tinha qualquer expectativa positiva em trabalhar nos cafundós do país. Eu era essencialmente urbana, criada em cidade grande, cosmopolita e modernosa, o que eu poderia encontrar de interessante ali? Pois é, naquele dia que mudou a minha vida para sempre, eu fiz uma apresentação para umas trinta pessoas, gestores e coordenadores das escolas e, obviamente, o Sr. T estava na plateia. Então, aconteceu algo muito estranho: eu cantei como uma sereia, as palavras não reverberavam na sala, elas flutuavam como uma música e o tempo parecia que tinha parado. O efeito não foi apenas no Sr. T, as pessoas na sala ficaram me olhando admiradas, como se estivessem olhando para uma criatura mágica, me deixando completamente constrangida. Não sei o que aconteceu naquele dia, mas vou lembrar para sempre daquela sala calorenta e cheia de móveis velhos na qual o Sr. T me lançou o primeiro olhar apaixonado. Sim, foi ali que ele foi enfeitiçado, ou melhor, nós dois fomos enfeitiçados porque depois deste momento nada mais foi igual. Algum tempo depois ele me disse que eu era uma sereia ou bruxa e que tinha que ter cuidado com a minha forma de usar a voz. Claro que não existe nenhuma evidência científica nessa história e eu nem deveria estar contando uma maluquice como essa. Só estou registrando aqui porque faz parte da minha lembrança, mas a última vez que senti algo parecido foi no meu concurso para professora. Na dúvida, eu sempre tenho cuidado quando sinto algo estranho no ar e mudo a entonação rapidamente. Afinal, nunca sabemos quem está nos ouvindo...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A reforma da natureza, by Mariazinha

É inevitável que as festas de fim de ano provoquem as nossas lembranças e considerando tudo o que passamos, penso que foi até melhor do que as minhas expectativas. Mariazinha sentiu saudades e logo depois do Ano Novo resolveu promover uma reforma, irritada com a própria ladainha do "estou com saudade do papai" de sempre.


- Eu não acho certo não poder mais ver as pessoas que foram para o céu. Por que a pessoa que vai para o céu não pode vir aqui um pouquinho, mamãe? Só porque morreu, é?
- É filha, mas é assim, não se pode ver a pessoa nunca mais.
- Mas não está certo mamãe, a pessoa pode vir ver a gente e depois volta para céu. Não precisa ficar para sempre, é só para a filha poder ver. Querem que a filha não veja nunca mais, é? A pessoa fica triste assim! A filha fica triste!
Tom do diálogo: alguns decibéis de irritação. Comentário da mãe para acalmar a filha:
- Você tem razão, filha. Você tem razão...

domingo, 2 de janeiro de 2011

Um fio de esperança

Eu esperava ficar deprimida, tão inconsolável que as tarefas do cotidiano seriam um peso que eu não poderia suportar e eu me trancaria no quarto por semanas sem ânimo para nada. Esse era o pior quadro que eu poderia imaginar para quem perde uma pessoa querida, mas não é bem assim que as coisas acontecem. É pior. Eu não esperava ter crises de ansiedade, angústia, palpitações e suores. Nunca me falaram sobre os sintomas físicos e a dor que eu sentia nas costelas nas primeiras semanas era tão grande que eu procurei um cardiologista e outros especialistas, em busca de um mal real ou imaginário. Eu não imaginava que continuaria respirando, trabalhando e vivendo porque não existe outra alternativa, você simplesmente precisa continuar seguindo em frente e ninguém pergunta se você pode ou não fazer isso. Nas primeiras semanas eu só pensava em como eu iria viver, que decisões tomar, o que fazer... Não podia nem pensar em fazer nada de diferente da minha rotina, as pequenas tarefas do cotidiano já eram um desafio enorme, imagine enfrentar novos desafios! Evitei os compromissos que exigiam conhecer novas pessoas, viagens ou qualquer outro tipo de atividade estressante. Eu que era tão corajosa e destemida conheci o medo, um medo enorme, espectral, quase um Nazgûl de Tolkien! Aos poucos fui buscando vencer os meus medos, sempre receosa em falhar. Comecei aceitando compromissos mais próximos que exigiam viagens curtas (sempre acompanhada) e percebi que podia controlar a dor ao respirar por algumas horas. No final de outubro fiz uma viagem sozinha à trabalho. Foi uma viagem complicada que exigiu muito de mim, mas foi o primeiro passo para eu voltar a respirar. Criei coragem e aceitei outro convite para o Rio de Janeiro. Encontrei uma velha amiga, vi o meu afilhado grande e bonito e consegui respirar mais ainda. Esse processo tão doloroso me mostrou que a esperança é um fio que precisamos tecer com cuidado e não deixar nunca que ele arrebente. O fio de esperança para este ano é poder retomar a minha vida com a coragem e tranquilidade que sempre tive, concentrando todos os meus esforços no que é realmente importante: cuidar da minha filhinha e respirar sem sentir aquela dor fininha no fundo do peito. É a esperança de estar, aos poucos, melhorando...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Fim de ano

Pode parecer estranho, mas não penso que 2010 só me trará lembranças ruins. Coisas boas aconteceram neste ano e a partida do Sr. T não pode ser marcada temporalmente por uma data. O impacto de sua partida vai reverberar o resto da minha vida, então seria injusto atribuir toda a responsabilidade ao ano de 2010. O Sr. T fez duas conquistas importantes que provocaram uma transformação profunda nele. Ele passou em primeiro lugar no concurso para Diretor de Artes Cênicas da UFPB com nota quase máxima (apesar de depois ter sido escandalosamente roubado) e também foi o primeiro colocado no concurso para professor de Artes do CEFET. O sucesso nas duas empreitadas fez com que o Sr. T decidisse voltar para a sua área de formação. Nunca vou esquecer do dia que saiu o resultado da primeira etapa da UFPB. Meu irmão viu o resultado primeiro e quando eu contei ao Sr. T, ele chorou copiosamente dizendo: - Eu sou um artista, sei que sou um bom artista! Ele teve a certeza de que estava no caminho certo. Enquanto eu estou escrevendo aqui, D.Maricota está brincando na varanda e inventando músicas com letras complicadas e extensas. Ele tenta rimar o final das frases, mistura vários ritmos e parece muito orgulhosa do resultado. Impossível não lembrar da cantoria do Sr. T e fico pensando o quanto ela não absorveu das intermináveis horas em que o pai cantou para ela. O repertório era extenso, variava de MPB até a música do Tatu no buraco. Quando ele pensava que ela já estava dormindo e interrompia a cantoria, ela invariavelmente abria os olhos e pedia: - Canta a do sol amarelo! E ele retomava a cantoria com sua voz grave. Senti muito por não ter gravado as suas cantorias e vou pedir ao nosso amigo Werter para conseguir as gravações das entrevistas que o Sr.T nas redes de TV locais. Eu quero muito que D. Maricota tenha as lembranças guardadas para sempre. Como ela mesma diz: não quero esquecer, mamãe!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Superando o Natal

Bom, conseguimos passar pelo Natal razoavelmente incólumes. Tivemos a tradicional ida na casa da avó na véspera, um pequeno almoço no dia 25 e o mais importante para D.Maricota, os presentes de Papai Noel! Depois de semanas de expectativa, ela abriu os presentes e ficou realmente surpresa por Papai Noel saber exatamente o que ela queria. Como sempre faço todos os anos, arrumei a sala com um cuidado especial e a novidade foi o enquadramento dos trabalhos do Sr. T que se transformaram em lindos quadros na parede da sala. Ao saber que eu estava levando os trabalhos para colocar moldura, D. Maricota perguntou: - Você vai colocar os trabalhos do papai na parede para não esquecer dele, mamãe? Porque eu também não quero esquecer... Como se fosse possível esquecer o Sr. T, com quadros ou sem quadros, com ou sem Natal!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

No Rio de Janeiro

Estivemos fora nos últimos dias, fomos buscar um pouco de conforto nas lembranças e nas amizades antigas. Dona Maricota se divertiu muito e aproveitou a viagem ao máximo, se comportando muito bem em todas as situações. Quando decidi fazer essa viagem, pensei em respirar outros ares e distrair Maricotinha com muitos lugares para visitar e coisas para ver. Não era exatamente uma fuga, mas a busca de um tempo para nós em um ambiente sem lembranças. Ela esperou pela viagem ansiosa e dramática com uma vontade tão grande de partir que não me pareceu a ansiedade comum das crianças nesta idade. Por isso mesmo, aproveitou ao máximo tudo o que podia ver, andou tanto que fez bolhas nos pés e não teve uma só coisa que não despertasse a sua curiosidade com inúmeras perguntas. Confesso que fiquei cansada, a quantidade de perguntas e reflexões da minha caçula derrubariam até Aristóteles! Em alguns momentos, ela mesmo perguntava e respondia, provavelmente cansada da lentidão do meu pensamento. Mas nenhuma fuga é perfeita e não é possível deixar a memória para trás: ela não deixou de chorar em alguns momentos com saudade do pai. Provavelmente pensava no que ele faria se estivesse ali conosco, se a carregaria no colo ou compraria algumas bugigangas para ela. Mesmo assim, tudo é válido porque se é certo que não podemos evitar o nosso próprio destino, tampouco podemos fugir do passado.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

As aventuras de Flapjack e Capitão Falange

O título deste post é sobre um desenho animado com uma história curiosa: um menino de rua (Flapjack) vive em Porto Tempestade dentro de uma baleia chamada Bolha, com seu amigo e mentor Capitão Falange. O sonho do menino é viver grandes aventuras como marinheiro e o desenho retrata o lado, digamos, decadente das grandes navegações. A partir de amanhã eu serei o Capitão Falange e Mariazinha será o Flapjack, juntas vamos em busca de muitas aventuras. Mesmo que a mais emocionante seja ver a decoração da árvore de Natal da Lagoa!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Shrek e Fiona

Desde o começo do nosso relacionamento, o Sr. T sempre se comparava ao ogro Shrek e afirmava que eu era a sua princesa Fiona. Ele se achava desajeitado, bruto, feio, tosco e grosseirão. Inadequado seria a palavra mais correta e ela se aplicava aos dois. Afinal, o Sr. T pertencia ao movimento negro e eu sou uma branquela loira aguada. O Sr. T era inadequado para mim, tanto quanto eu era para ele e isso só comprova o quanto vivemos de estereótipos e ideias pré-concebidas. Ele era um militante petista, um homem envolvido com as bases e toda a sua verve estava direcionada para a luta de um bem comum. Parece muito poético tal e qual um poema de Maiakóvski, mas o Sr. T pagou um preço alto por pensar e agir assim. Tenho a impressão que eu fui uma espécie de interlúdio na vida do Sr.T, uma nota fora do compasso da orquestra e que serviu apenas para que ele fosse feliz por um instante. Ele sempre dizia que uma obra para ser arte não podia ter função, ela tinha que rigorosamente não servir para nada. Penso que eu também não tinha função, não fiz do Sr. T um grande homem, não o ajudei a construir nada, não fui o seu esteio ou a sua base. Eu apenas fiz o Sr. T feliz por um tempo. Pode parecer pouco para algumas pessoas, mas considero suficientemente bom para mim.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Luzes de Natal

Hoje foi o dia de colocar as luzes de Natal na varanda e como essa era uma tarefa do Sr. T, fui assumir as suas atribuições com determinação e coragem (apesar do medo de levar um choque, eu tenho horror a choque elétrico!). Obviamente, Mariazinha não deixou de lembrar um só minuto do momento que vivenciava com o pai e entre a alegria de ver a nova iluminação e a angústia de suas lembranças, ia recitando as orientações: papai fazia assim, papai colocava assado, lembra de quando papai escorregou e quebrou as luzinhas, mamãe? E por aí foi... Depois de muitas respostas evasivas, humruns e ahrans, concluímos a tarefa sem nenhum susto maior. Amanhã preciso providenciar uma nova extensão, verificar se os fios resistiram ao vento constante, mas o resultado geral foi positivo. Bom, nós sabíamos que seria uma época difícil e lidar com o "espírito natalino" não vai ser fácil, mas já temos mais uma etapa vencida.