Uma das coisas que mais aborrecia o Sr.T era quando as pessoas diziam que ele não seria capaz de mudar, como uma espécie de condenação eterna a repetir os seus próprios erros. É interessante que o Sr. T acreditasse tanto na mudança das pessoas porque ele mesmo parecia um dinossauro preso aos seus próprios princípios que não flexibilizaram um só milímetro desde que o conheci. Talvez ele acreditasse tanto no perdão e nas segundas chances da vida que estivesse convicto da necessidade de se acreditar na mudança do outro. Esse foi o maior gesto de generosidade que ele fez por mim, caminhou comigo acreditando que eu poderia deixar as dores do passado para trás e mudar a minha forma de interagir com o mundo. Entretanto, exitem outras formas de ver a questão, o Dr. House do famoso seriado costuma afirmar que people don't change com a convicção que a nossa essência não muda nunca, independente das circunstâncias. Eu não tenho a mesma certeza do Sr. T, mas tampouco sou tão radical quanto House. Acredito que as pessoas podem mudar sim, desde que algo interno provoque essa mudança e ela sempre acontecerá lentamente, pois é um processo interno bastante doloroso que exige muito esforço e autoconhecimento. Pessoas não mudam pressionadas pelas circunstâncias, elas podem até simular a mudança durante um tempo para conseguir o que desejam, mas fatalmente voltarão para a sua configuração original na primeira oportunidade. Não posso dizer que fui sempre a mesma pessoa, mudei muito ao longo da vida porque fiz uma revisão pessoal e metafísica da minha trajetória, mas essa é a minha experiência. Por isso mesmo não posso desacreditar de quem diz ter mudado, mas a minha filosofia é mais pragmática do que a do Sr. T (e muito menos generosa, evidentemente): primeiro me mostre o que mudou e depois eu reconfiguro o que penso de você!
domingo, 7 de setembro de 2014
sábado, 6 de setembro de 2014
O medo e a coragem
Eu adoro a animação da Pixar/Disney, "Procurando Nemo". A história é uma metáfora interessante sobre o tempo que perdemos na vida tentando evitar o sofrimento (inevitável) provocado pelas experiências da vida. "Fazer nada" parece a maneira mais racional de ficar livre dos problemas e, consequentemente, das emoções. "Fazer nada" implica em "sentir nada" e significa viver um simulacro de vida. Parece que estamos vivendo, respiramos, caminhamos, trabalhamos, dormimos, mas fugimos das emoções e passamos o dia lamentando a vida e o que o destino nos reservou. Queremos a felicidade, sim, desde que não exista risco de sofrimento. Queremos a melhor parte de tudo e não o resto que está envolvido, assim como invejamos quem aparenta ser feliz. Como diz a música Sorry, do Tears for Fears, Life is not a cake to separate... O único problema dessa lógica é que mesmo não fazendo nada, coisas ruins acontecem. Procurando Nemo é sobre isso, um peixinho que se torna covarde por conta de uma tragédia e acredita que ao se esconder do mundo, estará seguro. Infelizmente (ou não) o infortúnio vem até ele e a única saída é enfrentar os seus medos e a vida. Mas de onde vem a coragem? De onde vem a força que nem desconfiamos que temos quando um momento difícil aparece em nossas vidas? Não sei a resposta, mas sei que a coragem é uma escolha diante do que você não pode mudar: você pode passar o resto da vida se lamentando e culpando os outros ou decidir superar o que aconteceu de ruim e viver a vida com tudo que ela pode lhe oferecer. Nos últimos cinco anos fiz mais coisas do que em toda a minha vida. Coisas que vinha adiando durante muito tempo porque os riscos sempre me pareciam altos demais. Perdões sinceros foram oferecidos, desculpas passaram a ser aceitas, viagens realizadas, datas comemoradas, visitas aos amigos concretizadas, apoio a quem precisa dado... A vida se tornou mais leve quando passei aceitar que não posso controlar o meu destino, embora possa fazer de tudo para que ele seja o melhor possível. Um futuro feliz e tranquilo não é algo que possa ser alcançado com o sacrifício e sofrimento de hoje porque o amanhã, de fato, não existe. O futuro é consequência do presente, ser feliz hoje implicará em ser feliz amanhã, nem que seja pelas lembranças acumuladas. Hoje não posso adiar mais nada, o tempo é curto demais. Talvez falte a certeza da finitude para a maioria das pessoas e pode ser que ela só apareça quando a ampulheta é finalmente quebrada. Carpe diem!
Time is an arrow (o tempo é uma flecha)
You are the bow (você é o arco)
Shoot it now to seal your own fate (atire agora e sele seu próprio destino)
Get a life, get a love, get a new big idea (tenha uma vida, um amor, uma nova ideia)
(Sorry, Tears For Fears)
sábado, 21 de junho de 2014
Sobre almas gêmeas e outras bobagens
Certa vez, eu li uma carta de uma mulher que estava se divorciando e ela fazia uma estranha acusação ao ex: "como ele poderia querer a separação, se ele sempre disse que os dois eram almas-gêmeas?". Como se o ex-marido não pudesse ter repensado a relação deles, afinal, alma-gêmea é uma sentença definitiva do "juntos para sempre"! Achei curioso que ela não tenha dito que também acreditava nisso, ela coloca a afirmativa na fala do outro e espera que ele cumpra com o que acreditava porque ela mesma não ousa repetir ou reafirmar aquela bobagem. Nunca acreditei na existência de almas-gêmeas embora acredite que espiritualmente temos muitas contas a acertar. Isso é muito diferente de associar almas com perfeição, já que estamos no plano terrestre exatamente porque precisamos evoluir, melhorar... Várias pessoas passaram pela minha vida e cada uma teve um papel fundamental no meu desenvolvimento pessoal e espiritual. Eu agradeço ter convivido com cada uma delas, especialmente com o Sr. T que teve um papel fundamental na minha vida. O que ele fez por mim, eu faço hoje por outras pessoas e assim multiplicamos as boas ações e neutralizamos o que existe de ruim no mundo. Hoje encontrei um texto que resume bem a ideia equivocada do conceito, sem perder a ternura e o romantismo jamais!
"Foi D.H. Lawrence que melhor soube expressar - uma vez que alguém para de mudar ou proíbe que você mude, o amor, a vida em si, acaba perdendo-se. Uma vez que você para de mudar, você para de viver e pode-se dizer que você está morto, pois sua alma já pereceu. "Uma alma gêmea é alguém que desafia a sua alma". Isso é verdade, totalmente verdade. Uma alma gêmea é alguém que deixa que você mude ao mesmo tempo em que aceita quem você é - e mais importante, a pessoa que você irá se tornar".
O texto na íntegra está aqui, vale a pena a leitura!
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Mentiras sinceras me interessam
Encontrar um amor que valha a pena é raro, com um pouco de sorte podemos encontrar dois ou três ao longo da vida. Muitas pessoas não tem essa sorte por causa dos desencontros, mas a maioria não encontra mesmo porque não se permite viver experiências sem garantias. A vida tem de tudo: mágoas, sofrimento, decepções, traições, alegria, amor, recompensas, prazer etc. Não é possível separar só uma parte do bolo para provar e viver blindado do resto. Eu fico espantada com a perspectiva que algumas pessoas transformam os seus casamentos em verdadeiros campos de batalha cujo objetivo é apenas aniquilar o outro. A minha relativa tranquilidade após a morte do Sr. T estava relacionada com a certeza de ter feito tudo o que eu podia e a minha tristeza era um verdadeiro lamento pelo futuro interrompido. Acho que eu não suportaria viver o resto da minha vida pensando que poderia ter feito isso ou aquilo e não fiz! Só alguém muito pretensioso e equivocado pode pensar que nunca é tarde demais e que sempre terá oportunidade de consertar as coisas. Sempre é tarde demais porque o perdão pode nunca vir, a vontade de recomeçar pode se extinguir e a vida não é feita de novas oportunidades o tempo todo. A certeza da finitude das coisas me levou a abraçar a vida com mais determinação, inverter as prioridades, valorizar a companhia das pessoas e dar mais atenção aos meus sonhos. Nos últimos anos, fiz muitas coisas que adiei durante anos a fio... No balanço geral, descobri que a honestidade é que move a alma. Não estou falando da honestidade com os outros, mas com você mesmo, com as suas possibilidades e limitações. Existem muitas razões para que alguém fique preso em um relacionamento e nem todos os motivos são dignos ou louváveis, mas quem não é capaz de se arriscar e amar só encontrará um desfecho na vida: a solidão!
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Bolo de fubá
Pesquisadores descobriram que a felicidade das pessoas está relacionada com a capacidade de sentir e expressar a sua gratidão. Ser grato a alguém que faz qualquer coisa por nós, sejam elas grandes ou pequenas, aumenta o nível de satisfação e a sensação de felicidade. No meu caso, o reconhecimento pelo papel do Sr. T na minha vida e a gratidão que sinto por todas as coisas que ele me ensinou, serviram de lastro para manter o meu equilíbrio e transformar a minha angústia em uma saudade tranquila. Vejo isso em Dona Maricota também, a gratidão que ela sente por todos os gestos do pai ajudaram a consolidar uma memória positiva e estendida hoje em outros níveis de sua vida. Ela reconhece os gestos mais simples do cuidar das pessoas que estão ao seu redor e tem uma clareza espantosa para a sua idade de que cada gesto é um ato de generosidade. Generosidade voluntária e grandiosa, nunca uma obrigação. Uma amiga me contou uma história que ilustra muito bem a necessidade de compreendermos o cuidar como um gesto de generosidade. Ela recebeu em sua casa a irmã, o cunhado e os sobrinhos. Feliz com a visita, ela preparou o lanche da tarde com um bolo de chocolate. Ao ver o bolo, o cunhado reclamou que não gostava de bolo de chocolate, o único bolo que ele comia era de fubá. A minha amiga na mesma hora foi para a cozinha e enquanto terminava de colocar a mesa, preparou e assou um bolo de fubá. O cunhado não fez nenhum comentário sobre o bolo que apareceu magicamente na mesa, mas a irmã, depois de provar o bolo, disse:
- Eu tenho uma receita excelente de bolo de fubá, vou passar para você. Fica uma delícia!
Minha amiga já magoadíssima naquela altura, saiu pela porta da sala e não voltou até as visitas terem ido embora. Dias depois, a irmã pergunta o que aconteceu por telefone e a minha amiga coloca a sua insatisfação com o comportamento deles durante a visita.
- Quando alguém cozinha para você, seja o que for, por mais simples que seja, é um gesto de amor. Você come e agradece porque é isso que fazemos quando não fomos capazes de preparar a nossa própria comida: a gente come e agradece!
Espero, sinceramente, que os parentes da minha amiga tenham aprendido algo com esse episódio, mas eu duvido muito que isso tenha acontecido!
sábado, 1 de março de 2014
Rupturas (quase) definitivas
As rupturas definitivas nos relacionamentos só são percebidas de imediato no caso da morte. Neste caso, não existe esperança, não existe tentativa, não existe futuro... Quando um relacionamento é interrompido com a morte, as memórias são selecionadas, as mais dolorosas são apagadas e com o tempo ficam só as lembranças positivas misturadas com a saudade do outro. Parece um paradoxo, mas a ruptura definitiva da morte pode fazer com que a pessoa querida permaneça para sempre na lembrança. Entretanto, eu estou pensando nas rupturas dos vivos e não apenas nos relacionamentos de casal, mas em todos os tipos de relacionamento: amigos, pais e filhos, irmãos etc. As rupturas provocadas por brigas, decepções e mágoas são muito doloridas no começo, mas sempre se tem o atenuante do futuro. Neste tipo de ruptura, sempre temos o desejo da cartase, do momento no qual as coisas podem se ajustar e tudo voltar a ser como antes. É a expectativa da reconciliação que atua como um bálsamo ou como uma forma de tortura para quem sofre mais com a separação. E aqui temos uma situação interessante, continuar convivendo com a pessoa pode ser muito mais doloroso do que o afastamento completo. Vejo pessoas que usam o afastamento como vingança e acreditam que o outro está sofrendo por isso, mas a ausência pode ser muito benéfica porque o sentimento de falta, a saudade e até mesmo o exercício do amor pode ser muito mais um hábito do que uma necessidade real. A realidade dura da vida mostra que em condições normais, qualquer vazio pode ser preenchido e que ninguém é mesmo insubstituível. Assim, a interrupção do convívio está longe de ser uma tortura, em muitos casos é, sobretudo, um grande alívio!
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Non sense que faz sentido...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Luzes, câmera... ação!
Dona Maricota foi uma estrela no espetáculo de fim de ano da escola e fiquei muito surpresa com a performance dela no palco! Ela estava segura, senhora de si e o mais importante: FELIZ DEMAIS! Ela realmente se divertiu muito... A coreografia exigia malabarismos que ela se recusaria a tentar há alguns anos. Agora, não só ela quis participar, como também se ofereceu para fazer a parte mais complicada! Apesar da minha felicidade, senti um nó na garganta e foi impossível não pensar no Sr. T. Como ele teria vibrado e se orgulhado da filha no palco, como tem coisas dele nela! Não senti tristeza por ela, está claro que para ela agora pouco importa, mas senti tristeza pelo que os dois perderam. A vida é dura mesmo, por mais que seja possível dar a volta por cima e desafiar o destino.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Doutores da alegria
Uma das características (como dizia um professor meu, pessoas não tem defeitos e qualidades, tem características) do Sr. T mais irritante era a sua discrição. Ele simplesmente não falava das pessoas, não contava coisas sobre a vida dos outros e também não alardeava as coisas que fazia. Eu ficava louca da vida quando descobria que ele tinha feito coisas importantes tempos depois. Lembro que só soube que ele ganhou um prêmio importante como melhor ator muito tempo depois de o conhecer. Quando o pai dele esteve doente no hospital para tratamento de câncer, o Sr. T me contou que ficou comovido com as crianças que se tratavam lá. Nunca me disse nada sobre o seu desejo de ser voluntário ou fazer qualquer trabalho no hospital. Um belo dia, semanas depois da sua morte, recebi um telefonema do pessoal do hospital. Era uma moça querendo saber se ele iria ao encontro marcado para a semana seguinte. Eu estava apática, mas mesmo assim fiquei com as orelhas pegando fogo, como assim "um encontro"? Respondi rispidamente que ele não poderia ir e a minha interlocutora, entre decepcionada e sem-graça resolveu explicar do que se tratava. - "Aqui é do hospital do câncer, o João se comprometeu conosco de participar da festa do dia das crianças, por isso estou ligando para confirmar". Nem preciso descrever o tamanho da minha surpresa e perguntei se ele costumava trabalhar lá com frequência. A moça respondeu que sim, que ele ajudava muito na ala das crianças, mas que tinha sumido nas últimas semanas e por isso tinha resolvido ligar. Enquanto ela falava, eu digeria a minha surpresa, pensando no tamanho daquele coração que viveu ao meu lado e toda a injustiça do mundo enquanto me preparava para contar para a moça que ele não abandonou o trabalho voluntário no hospital, ele tinha morrido. A surpresa e a tristeza dela foram tão doloridas quanto todo o resto de nossa conversa. Depois de um tempo, fiquei pensando que nunca tinha visto o Sr. T no palco, quando eu o conheci ele já não atuava mais. Acabei sorrindo enquanto pensava: como eu gostaria de ter visto o Sr. T como um dos doutores da alegria!
domingo, 6 de outubro de 2013
A tal de felicidade...
Viver não é um exercício automático, repleto de tarefas diárias. Quem vive assim é apenas um autômato, alguém que reproduz os movimentos de uma pessoa, mas que não exerce a nossa principal condição humana: o livre arbítrio. Não que as pessoas façam isso conscientemente ou por maldade, em algum momento de nossas vidas, por diversas razões, abrimos mão dos nossos sonhos e esquecemos quem já fomos um dia. Sim, somos feitos de sonhos, desejos e aspirações e quando isso tudo deixa de existir, desistimos também de nossa condição humana. Um outro lado da moeda é a arrogância da imutabilidade. Pensamos que tudo será sempre eterno: a nossa estrutura familiar, a nossa casa, os nossos filhos, o nosso trabalho... Quando alguma coisa sai fora do nosso controle ou das nossas expectativas, nos vitimizamos e culpamos o destino (ou os outros) por nossas perdas. Não é preciso viver muito para perceber que a vida tem um pouco de tudo, menos imutabilidade. É só olhar para os últimos dez anos e contabilizar as amizades, as parcerias, os trajetos... Provavelmente metade disso deve ter mudado, pessoas trocaram de trabalho, de moradia, de marido, amizades que vão e vem, mais próximas ou menos próximas. Felizmente (ou não), a vida se encarrega de nos lembrar que tudo é imprevisível. Não existe cálculo, projeto, meta que resista ao imponderável! E lá estará você, começando do zero novamente, reconstruindo pedra por pedra o seu caminho. O recomeço faz parte da vida, da nossa essência, do que somos... O bom é que uma vez que aprendemos como as coisas funcionam, podemos olhar a vida com uma perspectiva diferente. Hoje eu não deixo de viver os momentos com toda a intensidade que eles merecem. Faço questão de cada abraço, cada palavra, cada momento, cada cafonice, cada sorriso, cada amizade, cada esperança... Eu respiro a vida em todos os seus elementos, sem medo e sem tristeza. Não existe mais o "apesar de". Viver assim me trouxe apenas dois sentimentos: o frio na barriga e a felicidade!






