quinta-feira, 21 de outubro de 2010

T. e Jerry

Eu nunca consegui entender, mas o Sr. T torcia para o Tom! Sim, o gato malvado Tom do desenho Tom e Jerry. Ele dizia que o rato era um sonso que atrapalhava o pobre gato inocente que estava apenas tentando manter a casa livre dos roedores asquerosos. Pois bem, a mania do Sr. T de acumular caixas de papelão cheia de cacarecos velhos trouxe um camundongo para dentro do nosso apartamento. Parecia mesmo o Jerry, pequenino, marrom com orelhinhas redondas. Quem nos alertou para a presença do ratinho fofo foi a nossa cadelinha yorkshire que ficou enlouquecida com a presença do rato dentro de casa. Depois de semanas de armadilhas, vassouradas e muito queijo desperdiçado, eu já não aguentava mais. Dei um ultimato para o Sr. T: - Você vai ou não vai pegar esse rato? Não é possível que ele seja mais esperto que você! E ele me respondeu irritado: - Mas eles são espertos! Você não está vendo que é igualzinho ao desenho animado? Pior é que ele tinha razão, quando vemos o desenho sempre pensamos como é possível tantas vassouradas e chineladas e mesmo assim o rato continuar serelepe. Na vida real também, mas desconfio que o Sr. T estava com pena de matar o ratinho. Finalmente, o Sr. T contando com a valiosa colaboração de nossa cadelinha Nala, conseguiu expulsar o rato de casa. Reparem que ele não liquidou o roedor, ele apenas o colocou para fora de casa, igualzinho ao desenho! Sorte a nossa que o Jerry não voltou para desfrutar as mordomias da nossa casa, porque se eu dependesse das habilidades do Sr. T para caçar ratos, já teríamos uma colônia gigante igual ao desenho Ratatouille!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sol, mar, areia e vento

Uma vez eu li um romance no qual o autor afirmava que remoer um problema era como cutucar um dente cariado, com a dor você percebe que ele está lá. Ontem eu fui caminhar na praia, um programa que eu só fazia com o Sr. T e que tinha um papel importante em nosso relacionamento porque sempre aproveitávamos esse momento para conversar ou discutir a relação. O litoral perto de casa é maravilhoso, seria um crime desperdiçar uma paisagem tão linda e um clima tão agradável. Caminhar molhando os pés na areia, sentir o vento no rosto, dar um mergulho ou simplesmente contemplar o mar, sempre nos ajudava a colocar as ideias em ordem. Sair para caminhar sozinha pareceu uma boa ideia nos primeiros dez minutos, mas depois de colocar os pés na estrada (ou melhor, na rua) a tristeza foi imensa. Chorei nos primeiros momentos, escondida atrás do chapeu e dos óculos escuros, mas fui até o fim. Fiz o nosso percurso de sempre, pensando nas inúmeras vezes que estivemos ali e quantas coisas eu tinha para dizer agora. Inútil, mas tive a sensação de que não caminhava sozinha e voltei para casa um pouquinho mais orgulhosa de mim mesma...

domingo, 17 de outubro de 2010

Eu e o Sr. T em Ilhéus

No começo do nosso relacionamento, o Sr. T vivia na Paraíba e eu no Rio de Janeiro. Nós dois tínhamos trabalhos que exigiam muito e fazíamos verdadeiros malabarismos para nos encontrar. Um dos nossos encontros foi em Ilhéus, que ficava no meio do caminho de algumas atividades que tínhamos na época. Passamos alguns dias explorando a terra de Jorge Amado e foi muito divertido flanear pelas ruas históricas da cidade com meus vestidinhos estampados como Gabriela Cravo e Canela. Nós ficamos em uma linda pousada na beira da praia, recentemente comprada por um casal que deixou São Paulo em busca de tranquilidade. Na primeira noite que passamos na pousada, fomos dormir quase oito horas da manhã porque eu tinha que entregar um relatório enorme e o Sr. T ficou me ajudando. No dia seguinte, dormimos até meio-dia e acordamos com o dono da pousada batendo em nossa porta achando que tínhamos morrido ou coisa parecida! Com o Sr. T, nem mesmo um simples passeio na pacata cidade de Ilhéus poderia ser desprovido de algo inusitado.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Faz um pouco de café?

Todos nós precisamos de um descanso de vez em quando, uma trégua, uma espécie de pausa no patamar para subir os degraus que restam. As minhas pausas estavam nas pequenas coisas do cotidiano: alguém para fazer um café, dirigir o carro, levar Mariazinha para passear enquanto eu vou ao salão de beleza, cozinhar o almoço no fim de semana... Enfim, coisas bobas que ninguém costuma dar valor no dia-a-dia, mas que são fundamentais para manter a sanidade mental de qualquer um. Nós dois sempre fazíamos coisas um para o outro, um doce, um pouco de café, comprar o pão na padaria, trazer um livro ou um filme. Coisas pequeninas que eram surpresas agradáveis para suavizar um cotidiano bastante árido. As frases ainda ficam na minha cabeça: - Benzinho, faz um pouco de café? - Vamos comer uma coisa gostosa na doceria? Talvez esta seja a minha descoberta mais dolorosa, não sinto falta de coisas grandiosas como as pessoas costumam dizer, sinto falta de coisas pequeninas que ele fazia e demonstravam o desejo de cuidar em cada uma de suas ações.

sábado, 9 de outubro de 2010

Resignação ou aceitação?

No domingo passado Mariazinha teve uma crise ao entrar em um novo brinquedo no shopping, ela literalmente entrou em pânico! Percebi com clareza que o sofrimento nada tinha a ver com o brinquedo (um carrinho que flutua na água), era uma crise de ansiedade. Ela tem sentido muito a falta do pai ultimamente, faz perguntas, cria teorias e chora bastante. Não é uma confusão pelo que aconteceu, é realmente a saudade que se instala e a cada dia que passa nos damos conta de mais coisas que não podemos mais fazer. No trajeto da viagem para o trabalho, com a choradeira inevitável de quando fico só com os meus botões, percebi que diante de uma tragédia em nossas vidas temos duas opções: ou nos revoltamos contra o mundo e descontamos nos outros as nossas frustrações e angústias ou então nos resignamos e aceitamos o que aconteceu, tentando ser uma pessoa melhor e mais generosa com os outros. Escolhi a segunda opção, é claro, mas me dei conta que a minha resignação não significa que compreenda e aceite a minha perda. A minha resignação está relacionada com a minha humildade diante da vida (porque não seria comigo, afinal não sou melhor do que os outros), e o reconhecimento de que se existe um projeto metafísico, eu não tenho a visão do todo. Porém, mesmo considerando que eu possa merecer cada milímetro do meu sofrimento, não consigo compreender a razão para o sofrimento da minha filha. Sei que existem coisas muito piores, crianças morrem e ficam doentes todos os dias, por isso mesmo tenho que me resignar diante da angústia, mas aceitar é outra coisa. Só é possível aceitar o que se compreende, em todas as dimensões possíveis e, sinceramente? É a única peça que falta encaixar no meu quebra-cabeça da vida. Por isso mesmo eu gosto muito do final do filme Cidade dos Anjos, quando o personagem do Nicolas Cage pergunta:- Estou sendo punido, é isso? E o amigo anjo pergunta: - Se você soubesse que ela iria morrer, teria feito outra escolha? - Nunca! Eu teria feito qualquer coisa apenas para ter sentido o calor da pele dela e a textura dos seus cabelos. É isso, a parte que me coube resumiu-se aos oito anos de convívio, mas se eu soubesse que seria tão breve, ainda assim, não teria feito outra escolha!

domingo, 3 de outubro de 2010

Hoje é o dia D

Ter vivido os últimos oito anos ao lado do Sr. T respirando política, faz com que o dia de hoje seja ainda mais difícil. Sim, a democracia está em festa com a possibilidade de eleger uma mulher presidente do Brasil! Para quem sempre acreditou no PT, a aprovação recorde do Lula é algo para se falar todos os dias para os conservadores: eu não disse? Mas o meu coração fica pequenininho porque o Sr. T não está aqui para participar da festa e sacramentar o seu voto no número 13. Vou votar em Dilma, mas para os outros cargos vou votar na legenda. Meu guru político não está mais aqui e não quero correr o risco de votar em alguém que possa ter prejudicado o Sr. T em algum momento. É, a falta do outro revela-se em todas as coisas do cotidiano. Todas mesmo, até em uma eleição!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Pelados em Tambaba

Assim que eu vim morar no nordeste, todos os finais de semana eu e o Sr. T saíamos para conhecer uma praia diferente. Como o litoral do Estado é extenso, dava para conhecer uma praia por dia, durante meses. Parecia que eu tinha encontrado o paraíso (não estou exagerando, os cariocas a-do-ram praia), os lugares eram maravilhosos, sem muvuca, estacionamento fácil, águas limpinhas e mornas. Seixas, Coqueirinho, Praia Bela, Gramame...até que chegamos em Tambaba. Uau, uma praia de naturismo na conservadora sociedade nordestina? Eu sempre provocava o Sr. T e os nossos diálogos eram muito maduros: - Você não tem coragem de encarar uma praia de nudismo! - Eu, é claro que tenho! Por mim, andaria pelado sempre! - Rá, então eu quero ver, duvido que você tenha coragem. - Eu vou! - Não vai, eu que vou! E assim seguimos por algumas semanas, até que resolvemos ir para a prova final. Chegamos em Tambaba, enrolamos um pouco do lado "familiar" (= pessoas vestidas) e subimos a trilha para a praia. Ao chegarmos lá em cima, um sujeito forte que tomava conta da entrada perguntou se íamos mesmo tirar a roupa (você não precisa tirar a roupa antes de chegar à praia, mas se passar daquele ponto, não pode chegar do outro lado vestido). Concordamos com as orientações e descemos as escadarias até chegar à praia. Fomos logo recebidos por uma espécie de guarda de naturismo, sem roupa, mas com um crachá pendurado no pescoço (uma das imagens mais insólitas e engraçadas que já vi até hoje). Não preciso nem dizer que até aquele momento, tanto eu esperava que o Sr. T desistisse, quanto ele pensava a mesma coisa. Turrões, fomos até o fim, só para provar quem era o mais fodão na história. Andamos na praia, vimos pessoas gordas, magras, novas, velhas, bonitas, horrorosas, até crianças (vestidas)! Depois de algumas horas, murchos e desapontados com a nossa aventura da coragem e liberação do nosso self, voltamos para casa. Para vocês terem uma ideia de como ficamos traumatizados com a experiência, nunca mais tocamos no assunto ou fizemos outra tentativa de ficar livre, leve e solto na natureza. Pelo menos, não com plateia cativa!

sábado, 25 de setembro de 2010

Perguntas e escolhas

Eu já disse aqui que não existe nada de positivo na perda, mas se tem alguma coisa que estou aprendendo, é ter clareza nas minhas prioridades. Se as coisas importantes da minha vida estivessem representadas em uma pirâmide, ela agora estaria de cabeça para baixo. Trabalhei muito nos últimos quatro anos, eu tinha três empregos e saía de casa muito cedo, voltando sempre à noite. O trabalho era a minha lei, eu estava disponível sábados, domingos e feriados. Depois que emendei essa corrida frenética com o doutorado, tudo ficou pior. Agora, a minha casa é meu castelo, todas as minhas energias estão focadas em cuidar de Mariazinha e do espaço em que vivemos. O mundo continua seguindo e não faz a menor diferença o fato de eu não estar mais matando um leão por dia. Segunda-feira, ouvi a seguinte pergunta de uma colega de trabalho:


- Por que você não veio na reunião? Fulano precisava do nosso apoio, você tinha que estar lá para apoiá-lo!


Mais zen do que um monge budista diante de uma mandala, respondi:

-Fulano não precisa do meu apoio para nada. Quem precisa de apoio hoje sou eu e ainda preciso apoiar a minha filha. Por isso mesmo, não estou disponível para apoiar nada nem ninguém por um bom tempo. Não sei quanto tempo vai ser, portanto, é bom vocês se acostumarem com isso!


# Detalhe: eu não estava na tal reunião porque não era o meu dia de trabalho e Mariazinha passou o dia vomitando por causa de uma virose. Quando se tem duas pessoas para dividir a responsabilidade, é possível distribuir as crises domésticas, mas quando estamos sozinhos, é preciso fazer escolhas. Tenho certeza absoluta de que fiz a escolha certa.

domingo, 19 de setembro de 2010

Torta de maçã

Eu sempre sonhei com a torta de maçã americana clássica, a mesma dos desenhos animados (Branca de Neve, Mickey etc.), mas nunca consegui uma receita remotamente próxima do que eu via nos filmes. Tenho que confessar que o meu forte na cozinha nunca contemplou o setor de massas, pelo contrário, sou uma negação com tortas e bolos. Meus problemas acabaram quando conheci o Sr. T, pois ele tinha trabalhado a maior parte de sua infância e juventude na padaria do pai, um homem simples, mas que fazia o melhor pão que já comi na minha vida! Assim, o Sr. T dominava muito bem os mistérios das massas básicas e ele ficava sempre responsável por sovar, misturar, medir e assar todas as receitas que exigiam um especialista na área. No fim de semana passado, eu e Mariazinha nos aventuramos na cozinha para fazer biscoitos, e resolvi experimentar uma receita de torta de maçã que encontrei no blog SugarNut. Sem o apoio do meu especialista, me debrucei sobre os mistérios da massa e o resultado foi supreendentemente bom! Consegui fazer uma torta com a massa mais deliciosa da minha vida, Mariazinha fez os seus biscoitos e terminamos o fim de semana com a barriga cheia de torta de maçã com sorvete e biscoitinhos com leite. E quem ainda tem dúvida da existência de anjos na cozinha?