sábado, 7 de julho de 2012

Notas sobre um webromance: função e forma

Frequentemente, nós mudamos a vida de outras pessoas. Um toque, uma palavra, uma ação, um exemplo, uma ligação... As pessoas são transformadas por nós da mesma forma que somos transformados por elas. Isso não significa que toda influência é positiva, ela pode acontecer tanto para o bem quanto para o mal. Obviamente, não podemos prever todas as consequências de nossas ações, mas quando agimos com intencionalidade em relação aos outros, precisamos ter clareza das consequências dos nossos atos. Em relação aos relacionamentos amorosos, isso significa que os nossos desejos momentâneos (que se modificam o tempo todo) não podem vir na frente do propósito de fazer bem ao outro. Nem sempre somos nós que vamos propiciar a felicidade, tranquilidade e equilíbrio para o nosso objeto de desejo. Usei a palavra desejo de propósito porque quando sentimos amor e não apenas desejo, a nossa preocupação com o outro é ampliada e deixamos de pensar apenas no que nos satisfaz para refletir sobre o que pode satisfazer aos dois. A mola que impulsiona o desejo nem sempre é acionada por coisas boas, muitos outros elementos podem disparar o gatilho: disputa, controle, ciúmes, atração, poder, dinheiro, carência, solidão... Intuitivamente, eu sempre analisei os meus relacionamentos considerando o nível de satisfação dos dois envolvidos, quando a balança pendia para um lado só, era hora de partir. Hoje, eu consigo ir além. Acredito mesmo que temos um propósito na vida dos outros e ele sempre tem que ser direcionado para o bem. É fundamental ter certeza se eu realmente posso aportar ao outro o que ele precisa, da mesma forma que o exercício inverso precisa ser feito. Quando se tem vinte e poucos anos, é possível testar e experimentar os diferentes níveis de aproximação disponíveis, mas quando já se viveu mais da metade do que se espera da vida, não existe mais tempo para errar e acertar. É tempo de apenas decidir.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Nascer do Sol

Observar os filhos é uma arte e, no caso de D. Maricota, é quase uma ação de clarividência. Compreender todos os percursos emocionais que ela vem realizando nos últimos dois anos é mais do que uma questão de estar atenta. É, de fato, uma preocupação com o futuro dela. Não tenho mais a menor dúvida de que ela está com as lembranças esmaecidas e, às vezes, ela me pede para relembrar um fato, uma música ou uma situação. Algumas das decisões dela estão relacionadas com os flashes de memória que ela carrega como, por exemplo, não querer cortar o cabelo (eu e Sr. T discutíamos bastante por causa disso, ele queria um cabelo de sereia e eu queria algo mais prático e moderno) ou ver o sol nascer. Parece que acordar cedo para ver o sol surgir na praia, foi uma combinação dela com o pai que nunca se realizou. Volta e meia ela insiste que gostaria de fazer isso. Hoje ela acordou bem cedo, correu para a janela e quando eu perguntei o que ela estava fazendo, ela respondeu: - Eu não digo sempre que queria ver o sol nascer bem cedinho, mamãe? Depois disso, ela voltou para a cama e adormeceu quase imediatamente. Fique acordada um tempão, pensando... Afinal, qual teria sido o sonho de D. Maricota?

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Notas sobre um webromance: seis graus de separação

A teoria dos seis graus de separação afirma que todos nós estamos interligados através de seis laços de amizade. Você interage em várias listas de discussão com uma pessoa que mora na cidade x. Você mora na cidade y. Os dois estão distantes e nunca se encontraram. Vocês não tem nada em comum a não ser o trabalho. Ou gostar de Star Wars, Senhor dos Anéis, músicas e livros. Possuem opiniões semelhantes em vários aspectos. Interagem em um grupo mais restrito, com o mesmo perfil e as tiradas inteligentes com muitas gargalhadas são inevitáveis. Nenhum comentário que possa revelar alguma intimidade é feito. Um dia você percebe que o seu amigo virtual está desanimado, doente, triste e solitário. Acredita que chegou ao fim da linha e não espera mais nada da vida. Você tenta animá-lo e pede que os outros amigos virtuais também o apoiem. No caminho do apoio desinteressado e distante, surge alguma coisa entre os dois. Incompreensível, estranho e inesperado. Então você descobre que viveram na mesma cidade, moraram na mesma rua e tem vários conhecidos em comum. Estudaram na mesma escola, com intervalo de poucos anos e tiveram os mesmos professores. Descobre que conheceu várias namoradas dele e que estiveram juntos na mesma festa de ano novo. Mesmo assim, nunca se viram. Nunca se falaram. Entraram e saíram por portas semelhantes a vida toda, se roçando, se avistando, mas nunca se encontrando. Como é possível ter vivido tão perto um do outro sem nunca se encontrar? Qual foi o propósito do destino para os dois? Alguma coisa começa a se reconfigurar na sua cabeça e no seu coração. O passado e o presente se misturam em um turbilhão de imagens, fatos, locais e situações. Impossível não pensar no efeito borboleta... E se tivessem se encontrado? E se tivessem casado? E se os filhos fossem filhos dos dois? Se o passado é imutável, é possível mudar o futuro? Surge, então, aquela pergunta que pode mudar a sua vida: e se?

terça-feira, 3 de julho de 2012

Notas sobre um webromance

Este é um blog líquido. Sobre o amor líquido. Tanto no sentido pós-moderno de Zygmunt Bauman, quanto na quantidade de sentimentos doloridos que estão nas entrelinhas do texto. Antes que alguém se irrite e deixe nos comentários um "se atualiza, mulher!", eu vou dar um refresco. Vou contar um pouco sobre como é possível se reconstruir depois de estar partida em milhões de cacos espalhados por aí. Vida nova, cremosas! A vida segue e nem por isso é mais fácil. Sabe aquela história de substituir um amor por outro? É mentira! Cada amor é único, embora as pessoas sempre insistam em carregar as mazelas dos outros relacionamentos. Ninguém substitui ninguém, os compartimentos continuam lá, intocados, embora menos doloridos ou visíveis. Só que isso não é ruim. Os amores importantes devem ficar nos seus respectivos lugares dentro de nós e servir como fundação e amálgama para os amores seguintes. É um aprendizado que vamos construindo a cada relacionamento, a cada passo, sempre um dia de cada vez. Nada mais adequado para justificar a referência ao Bauman e ao mundo pós-moderno do que um webromance. Vou logo avisando: nas notas sobre um webromance, cabe tudo e mais um pouco! Amor, desencontros, sofrimento, diálogos inacreditáveis, amizade, desconfiança, casamento, destino, descobertas, piração, sexo... É leitura para quem enverga sem quebrar. Enjoy it!

sábado, 30 de junho de 2012

O tempo e o vento

Eu gosto de heróis. Gosto de homens heróis, daqueles que lutam pelo que acreditam e são tão fortes e corajosos que parecem saídos de contos de fadas. Reparem que eu não gosto de príncipes, eu gosto de heróis, não gosto dos que salvam a princesa, eu gosto daqueles que protegem o mundo. Pena que os heróis sejam tão raros... Hoje, os candidatos a herói se tornaram escravos do cotidiano, das coisas pequenas, de seus ternos finos e carros caros. Não acreditam em mais nada e, por não acreditarem em si mesmos, são apenas homens comuns. Eu conheci três heróis durante a minha vida toda: o Sr. Baba, o Sr. T e o Sr. L. Cada um com suas características especiais, todos eles salvaram a minha vida (pelo menos metaforicamente). O Sr. Baba foi o herói indestrutível com o rosto mais fofo do mundo e uma mão tão forte que virou lenda urbana na Refinaria de Duque de Caxias (dizem que ninguém era capaz de abrir um registro que tivesse sido fechado por ele). Era um herói que tropeçava, mas nunca tombava e custei a acreditar que vida pudesse ser finita nele. Foi a primeira pessoa próxima que eu perdi na minha vida e justamente na figura de pai. O Sr. T vocês já conhecem, um herói que tinha uma causa, um propósito na vida e foi fiel ao que acreditava até os seus últimos instantes. Ele me ensinou a essência da vida, me fez rir quase todos os dias durante o tempo em que convivemos, me ensinou a controlar a minha ira e amar as pessoas incondicionalmente. É um herói do bem no sentido mais fiel da palavra. O Sr. L é uma espécie de anti-herói porque ele mesmo não se reconhece como herói. É capaz de cuidar das pessoas, ser generoso e realmente se desconstruir todos os dias para ser uma pessoa melhor, afugentando todos os seus fantasmas em busca da felicidade. Ele me salvou deu uma tristeza tão imensa que estava corroendo a minha alma, me fez sair do quarto escuro e voltar a se alguém. Nenhum dos três está mais na minha vida hoje, lamento todos os dias por todos eles e lamento por mim. Volto para os livros e me distraio com os meus heróis preferidos, Capitão Rodrigo, Stark, Aragorn... Na verdade, apesar de amar tanto esses heróis e reconhecer a importância de cada um deles, eu sei que na aventura da minha vida só existe uma grande heroína: eu!

Dois anos, oito horas e quarenta e quatro minutos. Mas ninguém está contando, não é mesmo?

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Borboleta nos olhos

O texto a seguir é da minha querida Luciana, uma linda que é a borboleta nos olhos do título desta postagem e uma feiticeira das letras embaralhadas, organizadas, sequenciadas... Precisei reproduzir aqui porque as palavras do texto estavam gritando dentro da minha cabeça, gritos tão altos e agudos que eu precisava colocar para fora. Percebi a verdadeira dimensão da delicadeza do amor quando indiquei o texto para uma pessoa querida e recebi a seguinte resposta: - Você é Eu e eu sou Tu!

Eu, Personagem

Eu sou em labirintos. Escavo percursos pra me perder de mim. Planejo fugas e marco paredes com indicações de futuros que não percorrerei. Monstro encarcerado, sei minhas sombras. Sou besta e herói, fio e espera. Morro. Morro todas e tantas vezes: espada no peito, abandonada na ilha, caindo do penhasco. E nunca. Permaneço no oco de mim, desfiladeiros de histórias que se fazem em angústia. Sempre, sempre, sempre a solidão de uma cabeça cindida do corpo. O desejo de saber em desejos do outro e só encontrar os caminhos de volta. Esperar a oferenda de amores que morrem em minha mão, um após o outro. Morrem todos tão jovens e eu nunca sei o que poderiam ser. Lá fora, eu espero, o fio na minha mão indica o caminho da desilusão: quando voltar do espelho, verei a gratidão fazer morrer o que prometia ser eterno. Quando todas as histórias forem esquecidas, saberei: eu sou em labirintos.

Tu, Personagem

Quero. Quero que meus dedos sejam pincel e escrevam no teu corpo as letras do meu desejo. Quero fazer, da saliva, tinta, desenhando os indecifráveis signos da fome no ventre. Quero as narrativas sem sentido e as palavras cantadas como gemido na tua boca. Quero fazer do teu corpo mata-borrão do prazer que me sei dar. Quero deitar a cabeça no teu colo como se fosses livro e sugar-te como se ler fosse em quente sabor na língua. Quero as histórias do prazer em tatuagens passageiras pra começar a reinventar-nos logo a seguir do gozo. Quero esquecer os imperativos, a primeira pessoa, o verbo querer e deixar-me, pele, papel, pincel e letra, tudo eu, tudo teu. Até que, de novo, seja eu a escrever: quero.

domingo, 24 de junho de 2012

A resposta de Elizabeth

- Em casos como este creio que é costume estabelecido exprimir a nossa gratidão pelos sentimentos que nos são confessados, embora esses sentimentos não possam ser retribuídos. É natural que essa gratidão seja sentida. E se a experimentasse agora eu lhe agradeceria.Mas não posso desejar e nunca desejei a sua boa opinião, e aliás o senhor a confere a mim contra a sua vontade. Sinto muito ter de causar decepção a qualquer pessoa, não o faço de propósito, entretanto eu espero que ela seja de curta duração. Os sentimentos que, segundo o senhor me disse, o impediram durante muito tempo de reconhecer a sua afeição, irão socorrê-lo facilmente depois da presente explicação.

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Orgulho e Preconceito é um dos meus livros favoritos, eu adoro a mudança interna que o casal protagonista precisa fazer para alcançar o seu final feliz. É um livro com muitas matizes, mas eu fiz questão de transcrever as passagens que relatam a censura mútua ao comportamento dos dois porque acredito que o que acontece no livro é atemporal. Elizabeth e Darcy não são vítimas de um plano arquitetado por outra pessoa para separá-los (o relacionamento dos dois é desconhecido dos outros personagens até as páginas finais). Eles são vítimas de si mesmos, dos seus preconceitos, suposições e enganos. Entre outras razões, ela recusa o seu pedido de casamento porque ele afirma amá-la contra as suas convicções, contra a sua razão e contra a sua própria vontade. Eu duvido muito que o amor de Darcy e Elizabeth pudesse ser resolvido com a mesma facilidade retratada no livro, o ponto de ruptura dos dois é grande demais. A autora encontra a solução punindo ambos por seu comportamento e a partir da humilhação e sofrimento, eles conseguem superar as suas próprias fraquezas e concretizar o seu amor. O livro foi publicado em 1813 e, embora retrate uma sociedade que não existe mais, as impossibilidades de Elizabeth e Darcy acontecem todos os dias, em vários relacionamentos. Quantas vezes não perdemos a chance de viver uma história de amor porque fomos escravos do nosso orgulho, da nossa arrogância ou dos nossos próprios conflitos? Em quantos momentos da vida não deixamos algo importante para trás porque não relativizamos a história do outro e não nos descolamos da nossa própria história? Sei que as relações humanas são complexas, que é impossível retirar o contexto no qual estamos inseridos, mas eu gosto de pensar que poderíamos viver as nossas histórias de amor apenas fechando os olhos e fazendo a seguinte pergunta: o que o seu coração realmente sente?

Elizabeth e Darcy (3)

Darcy ficou sentado durante alguns instantes e depois, levantando-se, pôs-se a caminhar pela sala. Elizabeth ficou espantada, mas não disse nada. Depois de um silêncio de alguns minutos, aproximou-se agitado e disse:

- Em vão tenho lutado comigo mesmo; nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos e preciso que me permita dizer-lhe que eu a admiro e amo ardentemente.

O espanto de Elizabeth não teve limites. Olhou fixamente para ele, enrubesceu, duvidou e ficou calada. Mr. Darcy considerou a atitude como um encorajamento e imediatamente fez-lhe a confissão de tudo o que sentia e desde há muito vinha sentindo. Falou bem, mas através das suas palavras outros sentimentos, além dos do coração, podiam ser percebidos. E ele não falava com mais eloquência da sua ternura do que do seu orgulho. O sentimento da inferioridade de Elizabeth, do rebaixamento que aquele amor constituía, os obstáculos de família que a razão sempre opusera à inclinação, foram descritos com um ardor que parecia devido ao seu amor-próprio ferido, mas que recomendava muito pouco as suas pretensões.

AUSTEN, Jane. Orgulho e preconceito. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Tradução de Lúcio Cardoso).

sábado, 23 de junho de 2012

Elizabeth e Darcy (2)

O dono da casa sentiu sinceramente que elas tivessem de partir tão cedo e procurou repetidamente persuadir Miss Bennet de que a partida não era prudente, que ela não estava ainda restabelecida. Mas Jane era firme quando sabia qual era o seu dever. Mr. Darcy ficou satisfeito. Elizabeth já se demorara bastante em Netherfield. Ela o atraía mais do que ele desejava. E Miss Bingley mostrava-se pouco gentil para com ela, e mais provocante para com ele do que de costume. Resolveu ajuizadamente mostrar-se mais cuidadoso e esconder os seus sentimentos. Não queria dar nenhuma esperança a Elizabeth e sabia que a sua atitude durante o último dia teria uma importância decisiva neste sentido. Firme neste propósito, quase não lhe dirigiu a palavra durante todo o sábado. E, embora ficassem sozinhos durante meia hora, não despregou os olhos do livro e nem uma só vez olhou para Elizabeth.

AUSTEN, Jane. Orgulho e preconceito. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Tradução de Lúcio Cardoso).

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Elizabeth e Darcy (1)

Elizabeth, que folheava os cadernos de música que estavam sobre o piano, não pôde deixar de observar que os olhos de Mr. Darcy se voltavam frequentemente na sua direção. Não podia supor que fosse um objeto de admiração para um homem tão importante. No entanto, achava estranho que ele a estivesse olhando por antipatia. Acabou imaginando, entretanto, que o que lhe atraía era algo errado e repreensível que existia na sua pessoa, e que contrastasse, aos olhos de Mr. Darcy, com as qualidades dos outros presentes. A suposição não a penalizou. Darcy lhe era indiferente demais para que desejasse a sua aprovação.

Depois de tocar algumas canções italianas, Miss Bingley atacou uma alegre canção escocesa e pouco depois Mr. Darcy, aproximando-se de Elizabeth, disse-lhe:

- A senhora não se sente inclinada a aproveitar esta oportunidade para dançar? - perguntou ele.

Ela sorriu, porém não disse nada. Ele repetiu a pergunta, um pouco espantado com o silêncio dela.

- Oh - disse Elizabeth -, ouvi o que perguntou antes, mas não pude determinar imediatamente o que deveria responder. O senhor queria que eu o fizesse afirmativamente para ter o prazer de desprezar as minhas preferências; mas eu sempre gosto de perturbar esses estratagemas e roubar às pessoas o lance que premeditam. Resolvi portanto responder-lhe que não desejo absolutamente dançar; e agora despreze-me, se ousar.

- Asseguro-lhe que não ouso.

Elizabeth, que tencionava ofendê-lo, ficou espantada com a amabilidade. Mas havia no tom dela um misto de doçura e de malícia que dificilmente ofenderia alguém. E Darcy nunca se sentira tão fascinado por uma mulher como estava por aquela. Acreditava realmente que, se não fosse a inferioridade das relações de Elizabeth, ele se encontraria realmente em perigo.

AUSTEN, Jane. Orgulho e preconceito. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Tradução de Lúcio Cardoso).