A questão central do filme Drácula, de Bram Stoker, não é explicitar o terror, apesar do tema e das cenas de suspense em vários momentos. Dirigido por Coppola, o filme é uma história de amor sofrida, complexa, angustiante e violenta. O mérito do texto de Stoker é justamente desvelar um tipo de amor que embora intenso e visceral, não é um amor belo ou digno. Vlad é um monstro (não importa a aparência que mostre) que age destruindo vidas em busca de alcançar o seu propósito: reconquistar o seu amor do passado, Mina. O filme (assim como o livro) nos provoca uma inquietação enorme quando percebemos que Mina se sente atraída por Vlad e vai em sua direção, apesar de todos os avisos e ameaças. A ausência de humanidade e compaixão de Drácula está muito bem representada no ataque que ele desfere sobre a melhor amiga de Mina (a cena do monstro sobre ela no jardim é perturbadoramente erótica). Mesmo assim, Mina revela o seu amor, deixando o leitor/espectador perplexo sem conseguir entender como ela é capaz de amar um monstro. Mina não é enganada, ela sabe a verdade e vê Drácula com suas diversas aparências, inclusive como um ancião e demônio. Em nenhum momento ela parece repugnada com a aparência dele ou com os seus gestos, tudo que vemos nos olhos de Mina é amor e desejo. Isso sim, é arrepiante... A relação de Vlad/Drácula e Mina pode ser explicada por uma história passada e pelo destino, muito mais do que pela escolha ou vontade dos dois. Os dois estão presos em sua própria história e precisam encontrar um fim para, finalmente, se libertarem. Na minha percepção, não é o amor de Mina por um monstro que me inquieta. O que me deixa inquieta é a possibilidade de um monstro realmente amar alguém...
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Meu Tio o Iauaretê
O Sr. T costumava perder um tempo enorme me observando e analisava os meus movimentos sempre que tinha oportunidade. Uma vez, eu estava me vestindo para sair e ele me observava deitado na cama. Ele parecia pensativo enquanto acompanhava os meus movimentos simples, como passar creme no corpo, enfiar um vestido pela cabeça, calçar uma sandália de salto alto... De repente, ele disse:
- Agora eu já sei! Você é a onça!
- Como? perguntei assustada.
- A onça! Você é a onça do conto do Guimarães Rosa, Meu Tio o Iauaretê.
- Hum... Não me lembro da história.
- É uma história linda de amor. Ele caça uma onça o tempo todo e no final se apaixona por ela. O amor dele é tão grande que ele vira onça também.
- Nossa! Não sei bem se é uma história de amor...Por que eu pareço a onça?
- Você se movimenta como ela e a cada dia que passa, eu quero me transformar em onça também para ser um só com você.
Alguns dias depois, ele trouxe o conto para que eu pudesse ler e entender a percepção dele sobre nós. Muito mais do que o contraponto mulher/onça, ele estava falando sobre sedução. O conto é sobre a sedução levada ao limite, até o combate com o seu objeto de desejo e a sua escolha entre perecer ou resistir. Encontrei uma excelente análise da sedução do texto de Oliveira (2009): "os termos usados por Guimarães Rosa para definir o tio do narrador – Iauaretê ou Jaguaretê – vêm do tupi yaware’te, que significa “onça verdadeira”. A ficção trabalha em sua função mimética e reproduz em narrativa o que o leitor vivencia: o espanto constante com a necessidade de escolher entre o que ele quer acreditar que seja verdade e o que ele prefere entender como mentira. A armadilha foi montada: em meio a falsas intenções e aproximações com a verdade, o leitor se acha seduzido pela obra. Mais uma vez a arte exerce a sedução da mímesis, através do pseudos". Eu ainda iria além, as percepções de verdade ou mentira são construídas a partir do jogo de sedução e assumem diferentes formas durante o processo. Não existe verdade no conto de Guimarães Rosa, buscar a verdade significa se perder ainda mais no labirinto das intenções e dos pseudos. Ao perceber que somente através das percepções será possível sair do labirinto, cabe a cada um estabelecer as suas escolhas. A do Sr. T foi perecer diante daquele amor, transformando a sua forma humana em onça.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Algumas reflexões sobre o sofrimento
Uma das coisas mais importantes que aconteceu na minha vida depois da morte do Sr. T foi descobrir a minha total incapacidade de provocar sofrimento em qualquer pessoa. Lidar com a dor dos outros se tornou um fardo que eu não conseguia mais carregar. O meu maior desafio nos últimos anos foi lidar com o sofrimento da minha filha todos os dias por causa da falta do pai. Sei que é inevitável que causemos mágoas nas pessoas que nos cercam ao longo da vida, fazemos isso sempre, intencionalmente ou não. Muitas vezes os interesses dos outros se antagonizam com os nossos e mais uma vez alguém irá sofrer na equação da vida. Posso até entender (mas não aceitar) que alguém cause sofrimento em outra pessoa por um interesse específico: promoção, desejo, ambição, ciúme, inveja... Pior ainda é quando o sofrimento é causado de forma gratuita, apenas pela falta de empatia com o outro. A coisa mais importante que eu aprendi com o Sr. T durante a nossa (curta) vida em comum, é que só o amor faz tudo valer a pena. E para amar, é preciso realizar gestos de bondade e generosidade com o outro todos os dias. Não é possível impor sofrimento ao outro, não importa sob qual justificativa. Quando fazemos outra pessoa sofrer, principalmente de forma deliberada, não existe mais amor. Já descuidei do amor dos outros muitas vezes ao longo da minha vida. Hoje, não posso sequer pensar em ferir alguém. O grande problema na decisão de não magoar os outros é que você não pode ficar blindado e impedir que os outros magoem você. É como dirigir um carro, você pode ser um excelente motorista e não bater em ninguém, mas não pode impedir que alguém bata em você. Em casos assim, você pode se deixar levar pela amargura e pelo ressentimento ou pode optar por se libertar e entender que ninguém nesse mundo pode ser responsável por nossa felicidade ou infelicidade. O sofrimento ocasional (principalmente quando é causado por outras pessoas) não define quem você é e muito menos quem você quer ser.
sábado, 3 de novembro de 2012
Então, era tudo mentira?
A Nova Onda do Imperador é uma das minhas animações favoritas. Os diálogos são impagáveis e a dublagem brasileira (com Selton Melo e Marieta Severo) fez a nossa versão ficar melhor do que a original. Eu odeio filmes dublados, mas esse vale a pena. Cuzco é um imperador mimado e egoísta que quer construir o seu palácio de verão no morro onde Pacha (um camponês) mora. Depois de demitir Yzma, a conselheira real, ela tentar matá-lo, mas o veneno é trocado e Cuzco acaba sendo transformado em uma Lhama. Por acidente, ele é carregado para a casa de Pacha e exige que ele o leve de volta ao palácio, sem se lembrar que foi a Yzma que o transformou. Pacha exige que ele construa o palácio em outro lugar e Cuzco se recusa até perceber que não conseguirá voltar sem a ajuda do camponês. Pacha salva a vida de Cuzco e ele finge fazer o acordo até chegar bem perto do palácio, quando revela a sua traição ao se negar a ajudar Pacha que fica preso na ponte. O interessante é que Pacha (mesmo sendo bom e tranquilo) encheu Cuzco de pancada ao saber que ele o enganou. A briga dos dois é bem engraçada (é a figura que ilustra esse post) e os diálogos do filme são tão legais que encontrei várias comunidades e sites na rede que reproduzem trechos das falas dos personagens.
(Pacha) - Então, era tudo mentira?
(Cuzco) - Era! Ah, não, deixa eu pensar... Calma aí... Ah, sim, era tudo mentira!
(Pacha) - Você apertou a minha mão!
(Cuzco) - É, foi. Sabe o que é engraçado nesse negócio de apertar a mão? É que eu não tenho mão!
Moral da história para ser aplicada na vida real: nunca confie em uma lhama que quer apenas usar você!
domingo, 21 de outubro de 2012
Temperos
Se eu fosse uma bruxa (coisa que eu suspeito há muito tempo) a minha magia seria revelada sempre na cozinha. Adoro a alquimia dos cheiros e sabores e o resultado da minha ação na cozinha está sempre relacionado com o meu estado de espírito. Se estou feliz, equilibrada e tranquila, os caldos fervem em cores brilhantes e os assados cheiram pela casa inteira, se espalhando pelos corredores e andares do prédio ao ponto dos meus vizinhos me perguntarem o que estava cheirando tão bem. Se estou triste, o resultado é sofrível, sem graça e sem brilho... Semana passada, eu ganhei de presente vários tipos de temperos comprados com um carinho do tamanho do mundo, em lojas especializadas no Centro do Rio que parecem ter saído do Beco Diagonal Potteriano. Fiquei enlouquecida com os aromas da pimenta rosa, do chimichurri mexicano, da sálvia, do curry, da baunilha, do açafrão... Fui correndo comprar vidros para guardar os meus temperos, fiz etiquetas e organizei todos na janela da cozinha. Lindos! Acordei hoje disposta a caprichar na alquimia e misturei temperos e sabores para o almoço que estão perfumando a casa toda. Enquanto eu cozinhava, fiquei pensando na delicadeza dos presentes que revelam a nossa alma. São sempre presentes simples na perspectiva material, mas complexos em sua execução: exigem planejamento, conhecimento, seleção e boas doses de adivinhação. Pode ser um anel, uma blusa confortável ou uma lista de temperos variados e exóticos... A felicidade que transborda ao receber um presente assim, recoloca tudo em seus lugares e provoca uma reflexão interessante: se você é capaz de compreender a dimensão da grandiosidade desses gestos, será capaz de abandonar os propósitos mesquinhos repetidos ao longo de uma vida inteira e entender que todo amor não pode ser em vão!
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
O Grito + Pink Floyd
Já me senti assim muitas vezes... Invisível, angustiada, mas ainda assim, sem medo da morte!
Fonte: Revista Entremundos
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Queridinha
A pergunta foi simples e direta, resultado de uma conversa boba sobre comportamento: - E o Sr. T? Como ele chamava você? Estávamos conversando sobre como os casais se tratam, rindo dos apelidos ridículos que colocamos em nossa cara-metade quando estamos apaixonados, como Mô, Mor, Benhê etc. Acessei a memória buscando a resposta. Não encontrei de imediato. Procurei a memória auditiva de quando ele me chamava para alguma coisa. Sabia que ele me chamava de Ana, mas muito raramente... Como ele me chamava, meu Deus! Qual era o nosso tratamento? Tentei visualizar a cena do Sr. T entrando pela porta e caminhando em minha direção enquanto dizia alguma coisa. A dor foi inevitável. O fluxo de imagens reavivadas na memória é sempre doloroso... Eu conseguia reproduzir as imagens, mas não podia ouvir. Eu não conseguia lembrar! Pânico... Comecei a suar frio enquanto o meu coração dava pinotes. Como eu podia não lembrar! Como? Senti um nó na garganta, os olhos arderam com uma vontade enorme de chorar. Levantei da cama agitada e fui em direção ao quarto da filha mais velha:
- Filha, você se lembra de como o Sr. T me chamava? Ela me olhou espantada, pensou por alguns segundos e começou a descrever:
- Ele a chamava de Ana, nunca usou Bia ou Ana Beatriz. Chamava de "meu bem" e quando explicava alguma coisa para você dizia "minha querida". Quase o tempo todo dizia "queridinha"...
Isso! Queridinha... Ou minha querida... Sentei na cama aliviada. Isso! Pude visualizar novamente a imagem dele em várias situações me perguntando coisas ou me chamando. - Mas é claro, minha querida! Quer que eu faça isso, queridinha? Meu Deus, consegui lembrar! Quando eu resolvi escrever esse blog foi justamente para não esquecer as pequenas coisas do nosso cotidiano porque quando a dor é muito grande, o mecanismo de defesa do corpo (e da alma) apaga as imagens, as experiências e os sons da nossa memória. O registro de cada lembrança minha aqui no blog sempre me faz chorar, é inevitável. Mesmo assim, depois de mais de cem postagens, ainda assim, não foi o suficiente. Eu esqueci de algo básico e essencial: o carinho enorme com o qual o Sr. T me tratava!
domingo, 30 de setembro de 2012
Mary e Max
May e Max é uma animação stop motion com uma história repleta de melancolia, mas tão real que é possível sentir um aperto no peito com a coragem do roteirista. "O filme acompanha dois personagens solitários, cujas vidas se cruzam pelo maior dos acasos: uma página aleatória aberta em uma lista telefônica. Motivada por uma dúvida infantil, a australiana Mary Daisy Dinkle, 8 anos, decide escrever ao nova-iorquino Max Jerry Horowitz, 44 anos. Junto à carta, alguns desenhos, uma barra de chocolate e a dúvida: "de onde vêm os bebês nos Estados Unidos". A correspondência inocente muda a vida de ambos para sempre, iniciando uma história que transcorre por mais de uma década". Não tem final feliz, os protagonistas são feios e a vida deles é um desalento só. E o mais perturbador? É assim mesmo que a vida é! Fiquei refletindo sobre como a nossa vida é uma compilação de momentos felizes que são pontuais, limitados e nem sempre recorrentes. Não andamos nas nuvens o tempo inteiro, não enxergamos cores vibrantes ou o calor do mundo em cada detalhe do nosso cotidiano. Passamos a maior parte do tempo fazendo coisas que não gostamos, em lugares que não queríamos estar enquanto sonhamos com aquele momento mágico de diversão ou descanso. Imaginamos um futuro pleno e repleto de felicidade enquanto vivemos o presente repetitivo e insosso. Invariavelmente, somos nós mesmos que sabotamos a nossa possibilidade de ser feliz, seja porque acreditamos no que a mídia nos diz sobre a felicidade ou porque não conseguimos domar o nosso caráter e ser fiel aos nossos desejos e promessas. Seja como for, Mary e Max é um relato singelo de nossas próprias reflexões e a falta de coragem em assumir o que realmente nos torna feliz.
sábado, 22 de setembro de 2012
O caso do sutiã verde rendado
O Sr. T frequentava um pequeno salão de beleza para fazer as suas tranças todo mês e era muito amigo da dona e da manicure. Por causa dele, eu comecei a frequentar o mesmo lugar e quando as duas se mudaram para trabalhar como funcionárias de um grande cabelereiro da cidade, eu acompanhei a mudança. Hoje, neste novo local, conversamos bastante sobre ele e nós três nos lembramos de uma história ótima sobre o meu ciúme e a comédia de erros que a vida pode ser. Como eu já contei aqui, o Sr. T tinha o costume de oferecer carona para muitas pessoas. Um dia, quando eu estava tirando as compras da mala do carro, encontrei um saco cheio de roupas.
- De quem são essas roupas? - perguntei.
- Ué, não sei. Não são suas? - ele respondeu distraído.
- Não, não são... - respondi enquanto tirava da sacola um vestido preto, algumas roupas de criança e uma bermuda.
- Então deve ser de alguém, provavelmente foi a minha mãe que esqueceu aí - disse ele distraído.
Exatamente naquele momento, eu retirei um sutiã verde rendado e lindíssimo de dentro da sacola.
- A sua mãe tem um sutiã desses? - falei já ficando com o pescoço vermelho e a voz alguns decibéis acima do normal.
Ele ficou visivelmente embaraçado e respondeu: - Rosângela! Deve ser de Rosângela! Semana passada eu dei carona para ela até a escola!
- Você está me dizendo que este sutiã é da sua irmã que é evangélica? É isso mesmo? Você realmente quer que eu acredite nisso?
- Mas eu não sei de quem é, oras! Se você não sabe, muito menos eu!- respondeu nervoso.
Bom, nem preciso dizer que eu rosnei durante semanas e o pobre Sr. T tomou o maior chá de abstinência sexual da história moderna. Meses depois, nós estávamos na cabelereira e ela de repente pergunta:
- T. você não encontrou uma sacola minha dentro do seu carro? Eu tenho quase certeza que perdi uma bolsa de roupas naquele dia que você me deu uma carona...
O Sr. T fez uma cara de alívio e disse: - Graças a Deus que você está dizendo isso! A sacola era sua! Viu, Ana? As roupas eram de Sara!
Eu, com a maior cara de bunda do planeta, ainda tentei colocar a história à prova:
- O sutiã verde é seu, q-u-e-r-i-d-a? - perguntei com a voz gélida.
- Mulher, eu pensei que tinha perdido o meu sutiã caríssimo! Foi presente de dia dos namorados do meu marido!
Enquanto isso, o Sr. T foi até o carro pegar a maldita sacola que foi examinada e avaliada por todos que estavam no salão. - O meu vestido, a bermuda de fulano... gritava Sara enquanto examinava cada peça de roupa perdida.
E o Sr. T: - É, Sara, nada como o tempo para fazer justiça com os inocentes...Você não imagina o inferno que eu vivi por causa dessa sacola de roupas!
Nem preciso dizer que depois que nós contamos a história, todo mundo caiu na gargalhada. Acho que estão rindo até hoje... Portanto, cremosas, quando vocês encontrarem um sutiã verde rendado perdido nas coisas do seu bofe, esgotem todas as possibilidades antes de dar um piti. Nada pior do que ficar com cara de tacho depois de uma comédia de erros como essa!








