domingo, 13 de fevereiro de 2011

Apesar de...

No filme Unconditional Love tem um diálogo que pode ser resumido mais ou menos assim: não importa se você for roubado, traído, maltratado, seu amor continua inabalável, independente do que o outro faça e mais: o outro não precisa sequer amar você de volta. Parece meio doentio (e é!), mas eu penso que o contrário também é estranho (eu só amo se você fizer isso ou aquilo) porque parece uma barganha ou um negócio. O caminho do meio entre os dois extremos pode ser o que eu e o Sr. T chamávamos de "apesar de". Todas as vezes que tínhamos alguma crise no nosso relacionamento, a ponderação era a capacidade de amar apesar dos defeitos do outro, das incompreensões e do próprio desgaste do relacionamento. O que eu chamo de desgaste é o processo de reavaliar a relação diante de cada crise. Neste momento, colocamos na balança o tamanho do nosso amor com as coisas boas do relacionamento e o fator que gerou a crise. Se a balança pender para o lado do amor, perdoamos e seguimos a nossa vida, se o fator da crise for maior que o amor temos duas alternativas: rompemos imediatamente ou guardamos ressentimentos que vão se acumulando ao longo do tempo. O grande problema é que os fatores nunca saem da balança, por mais que você os expulse. Toda vez que estamos em crise, não apenas o problema imediato é colocado para ser pesado, mas todos os antecedentes do relacionamento. É justamente aí que mora o perigo... O nosso "apesar de" era muito mais que perdoar o outro ou relevar o problema, era uma escolha. Eu escolho amar você apesar de você ter me magoado e como minha livre escolha, eu sou o único responsável por ela. E quando se é responsável pelas próprias escolhas, não cabe infligir ao outro as nossas frustrações e anseios. Talvez a maior complexidade do amor seja justamente a dialética entre dividir/ceder e ser autônomo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Amor e ciência: uma dupla explosiva!

Já faz um tempinho que a ciência insiste em desvendar o mecanismo humano que move a paixão e o amor. Parece que os cientistas não acreditam muito nas questões sociológicas, eles estão certos que vão desvendar as questões biológicas. A paixão é mais fácil, tem a ver com o cheiro, a memória, o DNA e sei lá mais o quê. Também acredito que a atração inicial possa acontecer por questões primitivas, relacionadas com a memória da nossa espécie: segundo eles, buscamos um parceiro com DNA diferente do nosso para possibilitar a perpetuação da espécie e a paixão só dura 36 meses. Agora, complicado é justificar biologicamente porque ficamos com uma pessoa por dez anos ou a vida toda. A escolha por alguém está muito longe de ser decidida com argumentos científicos. Bom, daí que os cientistas escanearam o cérebro de pessoas que estão juntas há mais tempo e se dizem apaixonadas pelo parceiro. Sabe o que eles descobriram? Que as áreas ativadas eram as mesmas das pessoas recentemente apaixonadas, com a diferença de que nos relacionamentos recentes as áreas da tensão e obsessão estavam ativadas e nos relacionamentos mais antigos eram as áreas da dedicação e do vínculo que estavam. Não tenho a menor ideia de qual seria o resultado se meu cérebro fosse escaneado, mas sei que um relacionamento é fruto de muitas escolhas que nada tem a ver com a ciência. Porém, como acadêmica, posso afirmar que dificilmente determinadas áreas seriam ativadas novamente no meu cérebro como foram no meu relacionamento com o Sr. T!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A escola

Semana passada, Dona Maricota voltou às aulas e foi dureza ter que fazer o processo que o pai fazia. Fui fazer a matrícula na escola, comprar o material dela e, finalmente, ir com ela até a escola no primeiro dia de aula e conhecer a nova professora. Ela está crescendo tão rápido, em menos de dois meses amadureceu muito. Está decidida a aprender a ler, resolveu que já é uma menina grande que atende o telefone e toma banho sozinha e o mais importante: já pode subir na casinha da árvore que tem na escola. Só as crianças grandes do Jardim II podem se divertir na casinha da árvore e, sem dúvida, foi um divisor de águas no processo de crescimento dela. Quando perguntei se ela tinha gostado da professora nova, ela me corrigiu: - Ela não é nova, mamãe, porque ela já era do Jardim II! Tentei explicar que era nova para ela e blá, blá, mas ela não me deu atenção. Ela é grande e já sabe tudo... Olhar o crescimento dela de forma tão visível e concreta me aperta o coração. Eu e o Sr. T conversávamos muito sobre o comportamento dela, tanto as suas tiradas engraçadas quanto os seus momentos de pirraça. Ver que ela está crescendo e ele não está por perto produz um tipo de tristeza no meu coração que nunca pensei que fosse sentir. Não é a saudade do passado, é a sensação de perda inexorável do futuro com tudo que ainda está por vir.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Duas partes do todo

Quando uma pessoa faz um balanço de todos os relacionamentos que teve na vida (incluindo os amigos e a família) pode concluir que algumas pessoas fazem muito bem para nós, outras nem tanto. O curioso é que algumas pessoas que não dão certo conosco, surgem como o par perfeito para outras pessoas, levando ao pensamento inevitável: será que eu era o problema? Claro que ter a premissa de que nós podemos ser o problema é sempre saudável, mas eu tenho uma teoria sobre isso. Acredito que todos nós potencializamos algumas características da pessoa que convive conosco (reparem que eu disse características e não qualidades ou defeitos). Uma pessoa extremamente ciumenta que convive com alguém que não suporta ser oprimido, será sempre uma combinação explosiva. Mas além das obviedades, existe um processo de negociação das características individuais nos relacionamentos e o resultado dela é o perfil do casal. Assim, algumas característica podem ficar suprimidas ou exacerbadas, dependendo do perfil do nosso parceiro. Isso significa que fazer um relacionamento dar certo depende muito mais da negociação correta das características individuais do que das questões relacionadas com o amor. O que costuma acontecer é que durante o período em que estamos apaixonados, fazemos mais concessões, nos anulamos, somos mais permissivos e quando a paixão acaba, enfiamos o pé na jaca e nos mostramos como somos de verdade. É aí que mora o perigo, portanto, não dá para dizer que as pessoas mudam ao longo do tempo, elas apenas se revelam. Quando conheci o Sr. T, eu estava tão desacreditada dos relacionamentos que fiz o movimento inverso: antes da nossa decisão de viver juntos, passamos uma semana em Carapibus e eu disse a ele exatamente como eu era. Despejei as minhas falhas de caráter, a minha ansiedade e os meus medos. Ponderamos uma série de coisas e resolvemos ali o que cada um poderia suportar. Nos anos seguintes, nunca tivemos uma briga muito séria, o que não significa que não tivemos problemas. Tivemos muitos, mas cada um sabia exatamente o que podia enfrentar e o que poderíamos cobrar do outro. A vida assim ficou bem mais fácil.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Meu highlander

Quando nos acostumamos com os problemas de saúde, a nossa percepção da gravidade das doenças fica alterada. Meu pai era um caso perdido, vivia entrando e saindo dos hospitais pelos mais diversos motivos. Ele era cardíaco, tinha três pontes safenas e vivia como se nada de diferente tivesse acontecido. Ele era tão bem disposto e rosado, que nós dizíamos que ele parecia um bebê Johnson. Subia em telhados, cortava os dedos em máquinas de serrar, despencava do alto das escadas, enfim, correr para o hospital com ele tornou-se um modo de vida. Até estrangulamento peniano, coisa da qual eu nunca tinha ouvido falar, ele conseguiu ter! As idas e vindas nas salas de emergência criaram uma falsa sensação de imortalidade para mim. Não importava o que ele tivesse, eu sempre tinha a sensação de que ele iria se safar e ficar melhor do que antes. Quando ele morreu, eu fiquei atarantada porque o meu highlander não tinha conseguido vencer mais uma batalha. No caso do Sr. T, foi pior ainda porque ele nunca tinha ficado seriamente doente. Nos nossos oito anos de convivência, ele esteve no hospital três vezes: duas por causa dos rins e uma por causa de uma pneumonia. Ou seja, nada grave ou assustador e se ele não podia ser comparado com um bebê Johnson, seria correto dizer que ele parecia um guerrilheiro forte e saudável que usava óculos de soldador como óculos escuros. Por aí já dá para notar a diferença!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Um homem bonitão

Ao comentar no outro post sobre o Sr. T ser bonitão, eu me lembrei de uma história ótima. Duas vezes por semana, eu trabalhava em uma empresa do sistema S e um dos pressupostos da empresa é que todo mundo deve estar enquadrado em único padrão de beleza, a tal da “boa aparência”. No nosso país a boa aparência significa ser branco, andar de terno, ter dentes perfeitos etc. e quem usa usa tranças rastafari, calças camufladas e cara de revolucionário cubano, definitivamente, não está dentro do padrão. O Sr. T foi me buscar como fazia sempre, mas como meu celular estava descarregado, ele entrou na empresa pela primeira vez e pediu para me chamarem. A secretária era uma moça muito novinha, um doce de pessoa, mas que já estava devidamente enquadrada nos pressupostos da “boa aparência”. Eu estava na sala de reunião quando ela entrou com olhos arregalados e a boca tão aberta que caberia um ovo: - Professora, tem um homem procurando pela senhora! O tom era de espanto mesmo e na hora eu percebi o que estava acontecendo: - Um homem? É meu marido? Obviamente, ela não podia acreditar que fosse e ficou muito embaraçada em ter que responder. - Não, acho que não... Ele disse que a senhora estava esperando por ele. Ela parecia ter certeza de que o homem era uma ameça e que não me conhecia. Fiz um esforço para não rir, outras pessoas estavam na sala e respondi muito séria: - Olha, fulana, meu marido é um homem lindo! Não tem como errar! O homem que está aí é bonitão? A pobrezinha, torcia as mãos nervosa, sem saber o que responder. - Ahnnn... não sei dizer, professora. Eu, ahn... Dei o golpe de misericórdia: - Por favor, vá até lá e olhe de novo. Se for um homem bem bonitão pode mandar entrar que é meu marido. Se não for, diga para ir embora que eu não conheço e não estou esperando ninguém! Vocês acreditam que foi só nesse momento que caiu a ficha e ela percebeu que eu estava fazendo uma crítica light ao preconceito dela? Sem graça, ela começou a rir e concluiu: - Bom, professora, eu vou mandar ele entrar. Pensando bem, ele é bonito sim... Desde aquele dia, ela sempre perguntava pelo meu marido bonitão e ria constrangida quando se lembrava do que tinha acontecido. Semana passada eu recebi um e-mail lindinho dela, querendo saber como eu estava e torcendo para que tudo ficasse bem. É muito bom quando podemos mostrar o outro lado da moeda e conquistar o carinho e o respeito das pessoas.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Como partir um coração

Acabei de assistir um filme bem legal chamado Then She Found Me - Quando me Apaixono, baseado no romance de Elinor Lipman. Fui correndo procurar o livro porque os livros sempre são bem melhores que os filmes, mas não encontrei aqui no Brasil. O filme tem um elenco de peso, é estrelado e dirigido por Helen Hunt, com atuações maravilhosas de Colin Firth, Matthew Broderick e Bette Midler. É possível enxergar vários focos no filme, o relacionamento central é sobre o encontro de uma filha com a mãe biológica completamente diferente dela. Eu gostei porque é um filme sobre traição, não apenas a traição nas relações amorosas, mas sim a traição do ser humano. A protagonista April é traída pela mãe biológica, pelo marido que simplesmente a abandona e até mesmo por Deus, ao mesmo tempo em que ela mesma trai outras pessoas. Seria mais realista dizer que a vida nos trai o tempo todo... No final, em uma cena maravilhosa, ela diz para o homem que ama que sempre irá magoá-lo, é impossível não magoar o outro porque ninguém pode prometer que nunca vai deixar de amar outra pessoa, que não vai mudar, que não vai ser egoísta em algum momento ou coisa parecida. Foi justamente esse ponto que me atraiu no filme. Eu sempre pensei que só podemos trair o nosso amor no sentido clássico, isto é, relacionando-se com outra pessoa, mas existem infinitas formas de traição. É possível destruir um coração bom em pequenas mágoas do cotidiano, na indiferença e no esquecimento. Na minha percepção, a perda sempre esteve associada ao rompimento, separação, divórcio etc. Enfim, o rompimento clássico dos relacionamentos com muitos dissabores e incompreensões nos dois lados. O que eu não sabia é que a morte também é capaz de partir um coração...

domingo, 30 de janeiro de 2011

A dieta da maçã

Quando eu conhecei o Sr. T, eu vivia no Rio de Janeiro e tinha uma alimentação natureba. Comida integral, pouca proteína e muitas frutas, legumes e verduras. A minha fruteira na cozinha vivia cheia e eu procurava manter uma grande variedade de frutas em casa. Eu estava bem magra na época e o Sr. T tinha um trabalho infernal, que incluía pouco tempo para as refeições e quase sempre comida de péssima qualidade. Como ele não conseguia se desvencilhar do trabalho para ter uma alimentação mais equilibrada, a alternativa foi trocar o almoço por frutas, mais especificamente, maçãs. Nós estávamos morando em cidades diferentes na época, então, tínhamos como hábito conversar na hora do almoço todos os dias enquanto comíamos maçãs. Na minha família todos achavam um absurdo ele ter mudado os hábitos tão rapidamente, a minha mãe sempre dizia que o "coitado estava emagrecendo demais". Na minha arrumação recente, encontrei várias fotos dele de alguns meses antes de nos conhecermos. Ele não estava somente fora do peso, estava muito inchado, a retenção de líquido era evidente. Olhando as fotos de algum tempo depois de estarmos vivendo juntos, ele parecia outra pessoa. Não estava apenas mais magro, mas tinha um aspecto muito mais saudável (além de bonitão!). Nós não conseguimos manter a alimentação natureba por muito tempo, mas ele continuou muito bem. É como disse uma professora minha espantada ao saber da partida dele: - Mas ele parecia tão saudável! Eu também pensava isso, professora, eu também pensava isso...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A outra metade

Quando eu tinha dezesseis anos, viajei nas férias de verão para a casa de praia de uma grande amiga. Durante as férias, eu conheci o bisavô da minha amiga, um velhinho bacana que vivia cercado de livros e por isso mesmo era considerado maluco pelo resto da família. Ele adorava filosofia, conversou muito conosco sobre Platão e as almas gêmeas (quando Zeus dividiu os homens e tornou o propósito da nossa vida encontrar a alma gêmea). Até aqui, tudo normal, se é que podemos considerar normal um senhor de quase noventa anos conversar sobre filosofia com duas adolescentes. Quando estávamos nos despedindo, ele me puxou para o canto da sala e disse muito sério: - Não adianta insistir com a metade errada, se você não encontrar a sua alma gêmea, as peças sempre vão ficar arranhando e nunca vão se encaixar! Naquele momento percebi que o bom velhinho era doido varrido mesmo, fui embora e esqueci a história. Quando encontrei o Sr. T, ele me contou a história de Platão novamente (não podemos esquecer que a formação do Sr. T era em direção teatral) e disse ter certeza de que tinha encontrado a outra metade. Ele tinha tanta certeza disso que quando eu brigava com ele e dizia para arrumar outra pessoa, ele sempre me respondia com um olhar triste: - Eu não vou encontrar outra pessoa, eu já encontrei e você é a minha última oportunidade de ser feliz. Não, gente, eu não estou exagerando, ele dizia isso mesmo! Exatamente como o bisavô disse, eu fiquei anos a fio "arranhando" com a metade errada e, por isso mesmo, tenho certeza de que encontrei mesmo a minha outra metade. Apesar da tristeza de não ter mais a sua presença ao meu lado, sinto um enorme alívio por ter tido a oportunidade de encontrá-lo. Afinal, a minha busca terminou!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Por uma vida menos ordinária

Hoje consegui terminar a arrumação do malfadado quartinho! Foram duas semanas com muita alergia, dores nas costas e um chororô sem fim que interrompia a faxina a cada meia hora. De todas as formas de comunicação, o texto escrito ainda é o que mais me impacta. Parece incrível, mas não sucumbi ao perfil imagético da minha geração. Um bilhete me comove muito mais do que uma foto ou um vídeo. Assim, remexer na papelada do Sr. T me provocou uma angústia enorme, principalmente ao ler as suas anotações feitas à mão. Encontrei fotos, exames, reportagens de jornal, textos, documentos, papéis velhos e livros. Muitos livros. Eu pensava que a maior quantidade de livros era minha, mas descobri que a maior parte do acervo que temos em casa pertencia ao Sr. T. São muitos livros sobre teatro e literatura, alguns muito antigos (penso que são verdadeiros clássicos que nem são mais editados). O mais difícil na separação dos papéis é pensar no que será importante para Dona Maricota daqui a alguns anos. Separar a papelada pensando em quais documentos traduzem melhor a vida do Sr. T para os olhos dela no futuro, não foi uma tarefa fácil. O que ela gostaria de saber? Que interesses ela poderá ter? Vai querer saber sobre a faculdade do pai? Sobre a sua vida política? Sobre o seu trabalho como escritor? Tentei me colocar no lugar dela e pensar o que eu gostaria de saber se eu tivesse apenas uma lembrança distante do meu pai. Me deparei com tantos trabalhos, prêmios, discursos, textos, planos para o futuro... Depois de ler tudo aquilo, só pude pensar uma coisa: quanto desperdício, quantas coisas ele ainda poderia fazer! A sensação de impotência e inutilidade é quase insuportável, mas pensei na música do Lobão: é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez...