sexta-feira, 6 de maio de 2011

Havaianas

Aqui em casa, nós simplesmente a-ma-mos as sandálias havaianas. É o nosso calçado preferido em dias de chuva ou sol. D. Maricota usou havaianas desde que era um bebezinho de fraldas e só comprei sandálias e tênis para ela depois dos três anos. Semana passada, a minha sandália havaiana fofa arrebentou e preciso contar em que situação dramática isso aconteceu. Uma das coisas mais importantes que aprendi com o Sr. T foi ter paciência (a dele era de Jó) com os filhos e nunca perder o controle da situação (que inevitavelmente resultaria em gritos e palmadas). Eu precisava ir ao mercado e mais cedo D. Maricota tinha optado por ficar com a irmã mais velha e não sair comigo. Fui ao mercado e quando cheguei em casa descobri que o sal tinha acabado. Na confusão de ter que fazer o almoço noves fora a irritação de ter esquecido alguma coisa, saí de casa sem perguntar se ela queria ir comigo. Já no elevador ouvi que ela estava chorando, mas pensei que fosse apenas uma manha passageira. Ao chegar na garagem, puf! do nada a minha linda havaiana slim arrebentou. Voltei para casa e descobri que D. Maricota estava aos prantos, desesperada porque queria sair comigo e magoadíssima porque tinha sido deixada para trás. Quando eu disse para a minha filha mais velha o motivo de ter voltado, ela respondeu: -É, o santo de D. Maricota é forte mesmo! Com a sandália arrebentada, a minha primeira ação foi fazer o que sempre fiz na mesma situação: procurar as sandálias do Sr. T! Eu adorava calçar as havaianas dele, mesmo sendo quatro números a mais do que o meu. Quando eu estava com os pés inchados e cansados, eu me enfiava na sandália dele e andava pela casa para descansar os pés. Perdi a conta das vezes que ele, já irritado, me perguntava onde eu tinha deixado as havaianas dele! Quando eu precisava comprar sandálias novas por algum motivo, ficava enrolando semanas para comprar um novo par só para usar bastante as dele. Sem ter as havaianas tamanho extra large amaciadas para calçar, fui obrigada a comprar uma nova no dia seguinte. Azul, lindinha, mas sem graça demais diante da brincadeira perdida...

domingo, 1 de maio de 2011

O desenho

D. Maricota está na fase dos desenhos da família na escola. Ontem ela disse que a "tia" pediu que ela desenhasse apenas as pessoas que moravam na casa. Segundo D. Maricota, o pai da "tia" também foi para o céu e virou uma estrela. Deduzi que a primeira versão do desenho dela tenha incluído a figura do pai também. Esse é um ponto delicado. Uma das maiores angústias dela está relacionada com o fato de não ter pai e eu sempre insisto que ela não pode dizer isso. Uma pessoa que não sabe quem é o seu pai ou nunca teve contato com a figura paterna, pode dizer com propriedade que não tem pai. Mas e alguém que tem a lembrança do pai presente e parte de sua história? É correto dizer que não tem pai? As duas situações não são completamente diferentes? Bom, eu sempre digo que ela tem pai sim, embora ele não esteja mais aqui. Ele vive na nossa memória e no nosso amor que continua existindo. Uma das coisas que mais me surpreendeu quando lidei com a morte de uma pessoa querida pela primeira vez, foi a constatação de que o nosso amor não acaba, mesmo que a pessoa não exista mais. Talvez daí venha a angústia, o amor que você sente está canalizado para um vazio e não é retribuído. O amor se perde na ausência.

domingo, 24 de abril de 2011

O Um Anel (na perspectiva do Sr. T)

"Nós temos uma coisa preciosa para carregarmos por todo resto da nossa existência como sendo um estandarte de samurai, preso a nossas costas e sobre as nossas cabeças, anunciando para o plano cósmico o que fizemos com a preciosidade que nos foi dada. Nós temos UM ANEL, digo um pois não são dois. Foram forjados para serem apenas um como nós somos na origem de nossa criação. O tetragrama que está impresso no nosso anel só era pronunciado sua evocação diante da Arca da Aliança. Ele é a materialização da maior força viva do universo, o que É "o eterno", o que gera e mantém todas as coisas, criador e consumador do amor. Uma palavra sagrada, uma chave, um signo de poder e fé. Quando decidi fazer o gesto de constituir esse nosso Anel, me senti fortemente canalizado e inspirado de verdadeiramente estar estabelecendo um testemunho definitivo de um amor dirigido para o bem e para luz, o símbolo da Pessoa cujo nome nele está escrito é nossa testemunha fiel. O Anel deve voltar para as nossas mãos, lá é o lugar dele, nosso símbolo, nossa aliança... O testemunho de nossa escolha. Cabe a nós faze-lo voltar para seu lugar. E assim como ele é um, não deve ser dividido, ou resplandece vivo como um estandarte anunciador da esperança e fé no amor em nossas mãos ou descansa uno com suas ambas partes, esperando o despertar da "estrela vespertina" e seu "ogro". Eu te amo..." (Sr. T, Natal de 2003).

sábado, 23 de abril de 2011

O Um Anel (na minha perspectiva)

Três anéis para os Reis-Elfos sob este céu,
Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,
Nove para Homens Mortais fadados ao eterno sono,
Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,
Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam
. (Tolkien)


Eu não sou adepta de cerimônias e datas marcantes no calendário, o que não quer dizer que eu não registre os momentos importantes da minha vida. Tenho pavor de certos hábitos burgueses, como comemorar o aniversário de casamento (o casal vive mal o ano todo, mas neste dia tudo fica maravilhoso) ou dia das mães e coisas semelhantes. O símbolo de meu casamento com o Sr. T era um anel que ele mandou fazer em ouro branco com uma inscrição em hebraico da palavra judaica que designa Deus. Os anéis foram feitos por um amigo do Sr. T, um joalheiro sabatista que ficou feliz com a tarefa que lhe foi confiada. O anel foi ideia do Sr. T, ele idealizou o formato, as letras e seu simbolismo. Desde o dia em que ficou pronto, o Sr. T nunca tirou o anel do dedo. Era um símbolo de nossa ligação e uma espécie de proteção de todas as coisas negativas do mundo. Eu continuei usando o anel depois de sua partida, mas não fazia mais sentido. Pensei em pedir ao joalheiro que o modificasse para que eu pudesse continuar usando, mas não tive coragem. Resolvi guardá-lo em sua caixinha de pedra-sabão e quando estou muito triste ou me sentindo desprotegida, eu o coloco por um tempo. Penso que D. Maricota vai querer ficar com ele quando crescer, não pelo seu valor como jóia, mas por tudo o que ele representou para o Sr.T. Eu não costumo reproduzir os textos do Sr. T (confesso que me tornei avarenta com as coisas que ele escrevia), mas sem a perspectiva dele sobre o Um Anel, seria impossível entender o seu significado. É sobre isso que vou escrever adiante.

domingo, 17 de abril de 2011

On the road (na estrada)

As pessoas sempre me perguntam como eu suporto a viagem que é o trajeto da minha casa até o trabalho. Eu não vejo muita diferença no tempo que eu levo hoje para chegar ao trabalho do que eu levava quando morava no Rio. Os engarrafamentos homéricos que já enfrentei dariam um livro (meio parado, é claro, mas mesmo assim impressionante, pois já fiquei cinco horas presa em um engarrafamento). Claro que fico cansada em alguns momentos, mas eu gosto de dirigir e a estrada tornou-se a minha terapia. É o lugar onde eu consigo digerir os acontecimentos e refletir sobre a vida. Desde a partida do Sr. T, as minhas viagens tornaram-se momentos em que eu conseguia pensar livremente em tudo o que estava acontecendo, sem ser um autômato ou uma atriz que disfarça o sofrimento. Sozinha na estrada, percorrendo o mesmo trajeto de sempre, eu conseguia encarar de frente a minha angústia e chorar tudo o que fosse preciso. Para quem não gosta de dirigir ou tem medo da estrada (lugar de perigos e do desconhecido), a viagem pode ser uma prisão. Na minha situação, a estrada é sinônimo de liberdade, um caminho para compreender o que ficou para trás e pensar em novos percursos para o futuro. A trilha sonora é essencial, como não chorar ouvindo Passive, do Perfect Circle? Wake up and face me/ Don't play dead/ Cause maybe someday/ I will walk away/And say you disappoint me/ Maybe you're better off this way... (Acorde e me enfrente/ não se finja de morto/ porque talvez algum dia/ eu irei embora/ e direi você me decepcionou/ talvez seja melhor você distante desse jeito...). Ou então ouvir Enigma cantando Why: I was childish and unfair/ To you, my only friend/ I regret/ But now it's too late/ I can't show you any more/ The things I've learned from you/ Cause life just took you away/ I'm asking why /Nobody gives an answer. (Eu era infantil e injusto com você/ Meu único amigo / Eu me arrependo/ Mas agora é muito tarde/Eu não posso mais te mostrar/ As coisas que eu aprendi com você/ Porque a vida te levou embora/Estou perguntando por quê / Ninguém me dá uma resposta). Ouvindo as minhas músicas favoritas e olhando a paisagem na estrada, as minhas viagens se tornam um momento mágico de digerir o meu sofrimento e me tornar mais inteira. São também os únicos momentos da minha vida em que eu permito sentir a presença do Sr. T bem perto de mim.

sábado, 16 de abril de 2011

Peixes

É claro que eu não acredito em horóscopo, mapa astral e bobagens semelhantes, mas quem resiste a dar uma olhadinha no lado místico da vida? Eu e o Sr. T éramos um casal do signo de peixes, com tanta sensibilidade e moleza que uma vida a dois pragmática parecia quase impossível! Mesmo com o mesmo signo, eu e o Sr. T tínhamos muitas diferenças. A caracterização do pisciano cai como uma luva para ele: "Os nativos deste signo são os "sofredores" do Zodíaco! Estão sempre prontos a carregar a culpa pelos males do mundo e não suportam ver ninguém sofrer sem oferecer sua ajuda. São sonhadores e indecisos, e não raramente se refugiam em seus sonhos para não precisar fazer parte deste mundo terreno tão difícil e tão duro! Seu idealismo e inspiração fazem deles pessoas inspiradas e às vezes produzem gênios (Einstein era pisciano!). Se adaptam facilmente a qualquer situação, são hospitaleiros, adoram comer e beber, até demais. Muitos se deixam levar pelos excessos e podem se tornas drogados, alcoólatras, ou "falsos magos" utilizando seus poderes mediúnicos inadequadamente. A excessiva sensibilidade dos piscianos deve ser levada para as artes, ou para o misticismo, para a religiosidade e a dedicação no auxílio aos outros, que é a sua verdadeira missão aqui na Terra". Perfeito! Para ele, é claro, porque eu nunca me enquadrei muito bem nas características do signo. Até que eu descobri que o meu ascendente é o temível signo de escorpião. Ahhhh... agora pode até ser: "O Ascendente tem relação com sua aparência física e com o jeito que você se apresenta aos outros. Você que tem o Ascendente em Escorpião, não passa despercebido. Seu olhar penetrante e sua expressão determinada demonstram uma força interior imensa. A sua natureza firme e magnética pode provocar mal-estar em pessoas mais frágeis: você parece estar sempre perscrutando o interior para enxergar através e analisar o conteúdo. A natureza do signo transparece em suas ações que podem parecer arrogantes e demasiadamente exigentes. A passionalidade inerente ao signo também pode ser muito evidente em sua maneira de agir, levando você a procurar satisfazer seus prazeres de forma intensa e profunda. A concretização de seus objetivos é conseguida com determinação e garra insuperáveis. Uma tendência a se envolver de forma exagerada nos relacionamentos amorosos pode se tornar perigosas se mal canalizada: as explosões de ciúme e ódio são comuns a quem tem este signo no ascendente. Você dá muita importância ao relacionamento afetivo que é exigente e exclusivo. As qualidades energéticas incontestáveis e excitantes do signo de Escorpião aparecem muito no Ascendente, mesmo se você se esforça em mantê-las secretas, como é característica do signo. Pouco falante e muito observador, você analisa muito mas não gosta de ser analisado. Você possui grande aptidão para estudos profundos e pesquisas secretas". Rá, também não me identifico muito nessa caracterização... Interessante é que o tal mapa astral faz uma advertência ao comportamento a dois dos piscianos: "Deve também tomar cuidado para não fazer "constantes sacrifícios" para seus amantes, já que a relação a dois é uma troca e não um sacrifício. Não deve desistir de um hobby, de um lazer, de uma vida própria para agradar o parceiro, pois isto lhe causará sem dúvidas muitas frustrações no futuro. Procure conservar mais sua identidade e não se "fundir" com o outro, como a sua natureza netuniana manda". Too late, baby, nós fizemos exatamente isso! Talvez seja justamente essa a minha impossibilidade de vislumbrar qualquer relacionamento além do Sr. T...

domingo, 10 de abril de 2011

Abrace a vida

Eu descobri este comercial no YouTube e fiquei maravilhada com a delicadeza do roteiro para falar de algo tão banal. Cada um de nós gosta do vídeo por um motivo diferente, o Sr. T adorou a performance dos atores (ele chamou a atenção para as mudanças nas expressões do ator que faz o pai e o olhar da menina). Eu gosto dos efeitos especiais repletos de emoção. D. Maricota gosta porque a menina tem uma fantasia de borboleta e ela abraça o pai salvando o dia. Revendo o vídeo, fiquei pensando porque o comercial tinha me comovido tanto: a possibilidade de salvar a vida da pessoa que amamos é transcendental. É uma pena mesmo que na vida real não funcione assim. De qualquer modo, abrace a vida!


quinta-feira, 31 de março de 2011

Vasos de cerâmica

O Sr. T vivia dizendo que D. Maricota ia ser uma artista por várias razões que mudavam de acordo com o contexto: ela tem um bom ouvido, desenha e pinta muito bem, gosta de combinar roupa estranhas, gosta de cantar, adora ir ao cinema etc. Resumindo: todas as coisas que qualquer criança de cinco anos gosta de fazer. Eu nunca notei nada de diferente nas inclinações dela, não consigo detectar qualquer traço de vocação artística ou coisa semelhante. Ela desenha tão bem quanto a irmã desenhava na mesma idade e mesmo admitindo que os desenhos estão um pouco acima da média, estão muito longe de prometer uma nova Beatriz Milhazes ou uma Adriana Varejão... É claro que pode ser que algo me escape, afinal, eu não sou da área e não entendo grande coisa de artes. Semana passada, ao arrumar os armários, encontrei um vaso de cerâmica sem pintura, bem simples mesmo que nem me lembro onde comprei. Coloquei o vaso na mesinha da sala e D.Maricota olhou para o vaso toda agitada: - É isso, mamãe, é isso que eu quero ser quando crescer! Fiquei sem entender nada e perguntei: - Você quer ser um vaso, filha? Ela fez uma cara impaciente de quem não aguenta a burrice da mãe e respondeu: - Não, mamãe! Eu quero ser a artista que faz o vaso. Assim ó... É começou a remexer as mãos como se estivesse moldando um vaso na olaria. Fiquei de boca aberta e perguntei onde foi que ela tinha visto isso. Ela ficou confusa e não soube me responder. A tia que presenciou a cena argumentou que talvez ela tivesse visitado alguém que trabalha com cerâmica junto com o pai, já que os dois andavam para todos os cantos juntos. É uma explicação bem razoável, é claro, mas continuei intrigada com a história. Será que o Sr.T tinha mesmo razão e D.Maricota será uma artista?

segunda-feira, 28 de março de 2011

Bocuda e reclamona

Uma grande amiga estava cansada do casamento, o marido não era mais o mesmo, os planos não deram certo, ele a oprimia e ela tinha certeza que só estava com ele ainda porque era acomodada e não conseguia vencer a inércia. Ela queria autonomia, queria experimentar novas relações, voar mais alto profissionalmente, enfim, ela queria ser feliz! Claro que dei o meu apoio e os meus ouvidos para todas as queixas da minha amiga, afinal, o que é importa é ser feliz e nós mulheres precisamos ficar unidas. Se ele a oprimia e não era mais o mesmo, estava na hora de chutar o balde e partir para outra. Depois de muitas crises e sofrimento, ela se separou. Respirou novos ares, dedicou-se mais a carreira, conheceu outras pessoas, emagreceu, ficou linda, namorou bastante e... descobriu que estava infeliz porque sentia falta do marido!! É, leitores, é mesmo para ficar de queixo caído: ela descobriu que o amor da vida dela era o marido depois que o deixou. Eu gostaria muito de contar que eles se reconciliaram e que foram muito felizes, mas não foi o que aconteceu. Ele não suportou a mágoa que a minha amiga tinha lhe infligido, casou de novo e nunca mais quis saber dela. Vendo o fiapo de gente que a minha amiga se tornou, fiquei pensando se realmente é necessário nos queixarmos tanto dos nossos relacionamentos, pois me parece que a realidade do cotidiano torna-se ainda mais dura. Durante uma época andei reclamando demais do Sr. T, tudo o que ele fazia me parecia errado e eu sempre encontrava bons ouvintes para as minhas queixas conjugais. Um dia, eu me perguntei se realmente estava disposta a fazer algo sobre isso. Quero dizer, eu realmente estaria disposta a me separar do Sr. T? Seria possível uma vida melhor sem ele? Quando eu comecei a visualizar como seria a minha vida sem ele, entrei em pânico! Me dei conta de que se eu não estava disposta a arcar com a escolha de uma vida sem ele, deveria lidar melhor com as coisas que me incomodavam. Reclamar o tempo todo da pessoa com quem você vive, faz com que os pequenos desencontros do cotidiano tornem-se problemas enormes e insolúveis, uma verdadeira bomba-relógio na relação. Competir com as conhecidas para saber quem tem o companheiro mais exigente, esquecido, bagunceiro, preguiçoso, folgado e ciumento, só faz sentido se for um torneio para premiar a pessoa mais infeliz no casamento. E vamos combinar, não é exatamente o tipo de troféu que a gente gostaria de exibir na estante...

domingo, 27 de março de 2011

Casamento burguês

Antigamente, os casamentos entre os nobres eram arranjados para garantir a perpetuação da riqueza das famílias. O nível de entesouramento não era o suficiente para garantir que as pessoas ricas se casassem com pobretões (não existia especulação financeira naquela época, é claro!) e o amor romântico não era prioridade. Com o surgimento da burguesia, temos o casamento por amor e, embora a expressão bom partido tenha substituído os pré-requisitos da nobreza, a liberdade de escolha foi ampliada. Porém, se na nobreza os contratos eram realizados antes do casamento, na burguesia ele é estabelecido depois da união formal. Uma vez casados, a dupla inicia um processo de acumulação de riquezas e ascensão social que inclui a casa própria, a casa da praia, o carro do ano, os filhos (sim, os filhos também fazem parte do pacote), a progressão na carreira e todos os símbolos de status das pessoas bem sucedidas. É claro que a responsabilidade por manter tantas variáveis sob controle, o sucesso profissional, a acumulação de bens e a criação dos filhos, torna a vida a dois muito mais difícil. Em alguns momentos, as pessoas já não sabem se estão juntas na jornada da vida por uma escolha afetiva ou financeira e a pressão pelo sucesso é quase insuportável. Os prós e contras do casamento não são mais analisados sob a perspectiva dos elementos afetivos, são consideradas também as perdas financeiras. "Ele me faz sorrir" ou "adoro o seu cheiro" são eclipsados por "eu tenho uma vida confortável, os meus filhos estão acostumados com um padrão de vida alto". Neste momento, a infelicidade costuma ser inversamente proporcional a quantidade de coisas que podemos comprar, gerando endividamento e formação de hábitos que reforçam a dependência e impossibilitam a autonomia. Por isso mesmo, compra-se cada vez mais coisas para preencher o vazio da alma, ou então, busca-se nas relações fora do casamento a afetividade perdida. Parece loucura, não? E é mesmo! Parece incrível, mas quando não se tem absolutamente nada, a relação fica mais fácil. Sem expectativas de acumular coisas, toda a energia do casamento fica direcionada para a relação, a prioridade está nos elementos afetivos e sexuais. Os oito anos em que passei com o Sr. T foram os mais pobres da minha vida (dentro dos parâmetros burgueses). Faltava grana para quase tudo, mas a vida seguia apesar de. Não tínhamos dinheiro para almoçar fora? Bora cozinhar juntos! Sem grana para ir ao cinema ou fazer um programa diferente? Bora assisti DVD e transar a noite toda! É claro que não é nada engraçado quando você não tem dinheiro para pagar a conta de luz ou atrasa o condomínio, mas tudo isso faz parte das nossas escolhas e sempre podemos acreditar que as coisas vão melhorar. Um dia, depois de uma discussão, eu disse para ele que tinha certeza que a nossa relação era essencial para a minha vida por uma razão simples: todas as manhãs eu me perguntava se queria estar ali, vivendo aquela vida. E todos os dias eu renovava a minha certeza porque a resposta era sempre a mesma: sim. Independente das dificuldades, da falta disso ou daquilo, era exatamente ali que eu queria estar. E por mais improvável que possa parecer, isso bastava!