O que vou contar a seguir foi presenciado por quatro pessoas e demorei alguns dias para escrever porque eu precisava me recuperar primeiro. Semana passada eu fiz uma viagem a trabalho e estava distante 3.000 km de casa. Visitei um dos pontos turísticos mais tradicionais do Rio de Janeiro, a Confeitaria Colombo, com várias alunas e uma professora amiga que trabalha comigo. Em um dado momento, a professora me perguntou se um homem que corria atrás de um garotinho fofo não parecia com o Sr. T. Eu olhei de relance para o homem de costas e dei uma risada porque ele tinha um cabelão estilo black power, usava uma bermuda camuflada e um casaco desconjuntado. Pensei que ela tinha achado o sujeito parecido com o Sr. T por causa do cabelo... O homem caminhou mais alguns passos, pegou o menino no colo e voltou em nossa direção. Naquele momento meu coração deu um salto e meu estômago se contraiu: o homem era igualzinho ao Sr. T! Cabelos, óculos, rosto, roupa e, principalmente, o olhar. Senti uma pressão no peito horrível, eu queria correr para ele e perguntar porque ele tinha ido embora e estava ali com aquela mulher e aquela criança. Sim, ele tinha uma mulher muito parecida comigo... Felizmente, o hemisfério racional do meu cérebro entrou em ação e eu tentava me lembrar do velório e do enterro, ele estava lá, eu tenho certeza! Dizia a minha parte racional enquanto a outra parte histérica dizia que eu não tinha chegado perto do corpo e não podia ter certeza, e se ele não estivesse morto? Tentei fazer cara de paisagem enquanto todas continuavam impressionadas com a semelhança (chegamos a tirar uma foto do sujeito que já estava ficando cabreiro com tantos olhares). Enquanto ele saía empurrando o carrinho do bebê, o pianista começou a tocar a música tema do filme "Em Algum Lugar do Passado" (informação devidamente registrada pelas minhas companheiras de mesa). Sim, seria uma coincidência comum encontrar alguém fisicamente parecido, mas o sujeito poderia estar vestindo um terno. Ou estar sozinho com um grupo de amigos. O que é inaceitável no universo paralelo das coincidências incríveis é uma pessoa semelhante à alguém que tinha uma aparência excêntrica, vestindo o mesmo tipo de roupa, com o mesmo cabelo e a mesma atitude carinhosa com uma criança! À noite, já deitada na cama do hotel, eu chorei muito e só pude pensar no quanto aquele encontro era cruel. A minha amiga, penalizada, me perguntou se não podia ser alguma mensagem para mim. Mal-humorada e ainda chocada com o que eu tinha visto, eu só pude concluir que se o que aconteceu foi algum tipo de mensagem, deveria ser para testar o quanto falta para eu cortar os pulsos!
terça-feira, 14 de junho de 2011
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Maria Bonita

Enquanto ainda estava na minha barriga, D. Maricota era chamada por nós de Maria Bonita. A mãe do Sr. T chegou a bordar uma manta em ponto de cruz com o nome "Maria Bonita", mas o significado para nós estava voltado apenas para a beleza mesmo. Antes de viver no nordeste, eu acreditava que os cangaceiros eram considerados heróis pelo povo da região e fiquei surpresa quando descobri que o rei do cangaço é uma figura polêmica. Dependendo da cidade, eles podem ser vistos como heróis ou bandidos, apesar do artesanato local vender várias figuras dos cangaceiros como suvenir. Hoje eu estava lendo um artigo sobre o centenário do nascimento de Maria Bonita e descobri que ela viveu com Lampião praticamente o mesmo tempo que eu vivi com o Sr. T: menos de nove anos! Segundo o pesquisador e autor da biografia da rainha do cangaço, Maria Bonita era uma mulher corajosa, decidida, acima de tudo apaixonada pelo homem que ela decidiu seguir. É, queridos leitores, qualquer semelhança deve ser apenas mera coincidência...
# D. Maricota já está bem, a febre cedeu e desde domingo ela está se alimentando direitinho. Agora, é engordar novamente e tomar muita vitamina C para ficar mais resistente.
domingo, 5 de junho de 2011
Sushiman

Uma virose bem agressiva está deixando D. Maricota arriada em cima da cama desde a noite de quarta-feira. Estou lutando contra a febre alta, enjoos, garganta inflamada, nariz entupido e, como em todas as doenças, o quadro parece piorar de madrugada. Eu sei que é preciso esperar o ciclo da virose se completar, mas o que mais me preocupa é que ela não está comendo quase nada e como já é bem magrinha, tem perdido peso rápido nos últimos dias. Felizmente, eu a levei para almoçar na quarta no restaurante japonês preferido do Sr. T. Ela queria comer “arroz quadrado” que nada mais é do que o sushi de salmão grelhado com cream cheese e arroz. Eu sempre peço ao sushiman para preparar o “arroz quadrado” dela sem algas porque para uma criança o sabor é realmente muito marcante. Quase sempre eu sou muito bem atendida, mas há uns quinze dias atrás uma dupla nova estava no restaurante e o "sushiboy" se recusou a fazer o sushi sem alga, alegando ser impossível. Nem preciso dizer que fiquei passada e acabei levando D. Maricota para comer (arhg!) sanduíche. Na quarta-feira, o nosso sushiman de verdade estava lá e preparou um prato maravilhoso para D. Maricota com morangos lindos como enfeite. Acredito que o pessoal de apoio deve ter contado o que aconteceu para ele porque além de preparar o prato com cuidado, ele fez questão de não cobrar. Bom, se foi só uma coincidência e ninguém disse nada, eu fiz questão de contar que não tinha sido bem atendida da última vez que estive lá. D. Maricota ficou tão encantada com o prato que comeu tudinho e ainda pediu para tirar uma foto. No final da tarde, ela já estava ardendo em febre, mas com a barriguinha cheia de comida saudável. Arigatô, sushiman!
terça-feira, 31 de maio de 2011
O legado em cada um de nós
Em todos os conflitos do cotidiano, o Sr. T sempre teve uma atitude pacificadora, mesmo quando a questão não envolvia a nossa relação. Em alguns momentos da minha vida, eu chegava do trabalho cuspindo marimbondos e escorpiões e ele nunca teve uma atitude incendiária, pelo contrário! O Sr. T sempre tentava ver o outro lado da questão, considerando os aspectos da fraqueza humana, os mal entendidos e até mesmo os elementos espirituais da questão. Perdi a conta de quantas vezes fiquei amuada por não encontrar eco nos meus acessos de fúria assassina, mas ele não foi sempre assim. Durante a nossa convivência eu descobri que ele tinha assumido várias brigas antes de me conhecer, algumas até insanas. Eu vou contar em outro post mais tarde os detalhes, mas a construção de um grande supermercado em João Pessoa, por exemplo, foi resultado da luta do Sr. T. Quando eu lembrava o seu passado de luta, ele respondia calmamente: por isso mesmo eu posso dizer que não vale a pena! Ontem eu participei de uma reunião complicada no trabalho, com pessoas queridas que precisavam tomar uma difícil decisão. Todas as minhas palavras na reunião buscavam a ponderação e a conciliação. Na volta para casa, vim chorando de mansinho porque percebi que uma parte do Sr. T ficou dentro do meu coração. Certa vez, o Sr. T me disse que o meu maior defeito era a ira, que eu precisava aprender a controlar os meus acessos de raiva. Depois da reunião, eu tive certeza de que o legado do Sr. T vive em várias coisas, mas - principalmente - no coração de cada um de nós.
domingo, 29 de maio de 2011
Diretor de palco

Eu gostava muito de ouvir as histórias do Sr. T de quando ele era diretor de palco do Teatro Castro Alves, em Salvador. Eu não o conhecia nessa época e ele contava tantas histórias interessantes que eu era capaz de ouvir horas o mesmo assunto. Eu sempre pedia para ele contar de novo as minhas histórias preferidas como, por exemplo, quando ele conheceu o Paulo Autran, as exigências e chatices dos atores, os grandes espetáculos... Foi com o Sr. T que eu aprendi o que é um palco italiano, que os grandes teatros tem vários andares abaixo do palco, que existem cofres tão grandes que cabem um cenário inteiro nos teatros e são muito usados para guardar os figurinos completos dos balés (são caríssimos), que existem elevadores para transportar elefantes como o da ópera Aída (meu Deus, eu não sabia que usavam elefantes de verdade dentro de teatros fechados) e que os bailarinos comem muito por causa do esforço da dança. Rá! Tenho certeza que vocês também não sabiam dessas coisas... Uma das minhas histórias favoritas é sobre o show da Maria Bethânia que costuma atrair tantas fãs, digamos, ardorosas, que o teatro fazia uma concessão especial para que ela entrasse pela lateral dentro do carro até a entrada para o camarim. O Sr. T disse que um grupo de fãs (emocionadíssimas!) ficava próximo ao palco com dúzias de rosas na mão que eram jogadas no palco durante o show, acompanhadas de gritos histéricos (maravilhosa, vitaminada, divina, poderosa...). Pouco tempo depois de um show da Maria Bethânia com lotação esgotada, Marisa Monte (em início de carreira) fez a mesma exigência: queria entrar pela lateral para não ser assediada pelos fãs. Ah, coitada, a direção do teatro disse um sonoro não-minha-filha-vai-se-catar-e-se-enxerga! Tem como não sentir falta de tantas histórias divertidas?
sábado, 21 de maio de 2011
Alta Fidelidade

Um dia desses eu estava conversando com um amigo sobre o conceito filosófico de fidelidade. É um assunto espinhoso porque envolve as questões impostas pela sociedade que estão relacionadas com o controle e o desejo (e o direito) individual de cada um de nós em ser feliz. A busca pela felicidade só é simples nos filmes românticos do tipo água com açúcar, a realidade é muito diferente. Em sua essência, quando sentimos desejo por outra pessoa, a infidelidade já aconteceu. Como é impossível controlar o desejo de qualquer ser humano, as convenções foram criadas: só é infidelidade quando acontece o contato físico, quase estabelece um relacionamento etc e tal. A web está bagunçando bastante os modelos de fidelidade adotados até agora, já que é possível obter prazer em relações virtuais sem nunca ter encontrado a outra metade pessoalmente. :) O fato é que eu tenho uma visão muito particular sobre o tema, acredito mesmo que cada casal deve negociar os seus próprios limites, independente das convenções sociais. Além disso, existem vários outros fatores que envolvem a (in)fidelidade que precisam ser considerados em cada relação (carência, ressentimento, fraqueza, vingança, insatisfação etc). Apesar da minha posição liberal a favor da livre negociação, não existia muita opção em meu relacionamento com o Sr. T. Eu queria exclusividade absoluta, não apenas no aspecto físico, mas também mental e até transcendental! Nós conversávamos bastante sobre isso e, estranhamente, a minha relação de fidelidade com ele nunca foi uma imposição. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, nunca me senti atraída por ninguém que valesse a pena mais do que um sorriso de dez segundos. Talvez esse quadro mudasse com o tempo e nós teríamos renegociado as bases de nossa relação. Ou talvez o Sr. T estaria trancado em um quarto escuro, amordaçado com fita Silver Tape até hoje. Quem pode saber?
terça-feira, 17 de maio de 2011
Sonhos roubados

Ser criança significa ter o futuro pela frente e todos nós já construímos castelos no ar. Eu sonhava em ser bailarina, professora, cientista, feiticeira e exploradora (é incrível como as crianças só pensam em coisas legais, criança que diz que quer ser milionário quando crescer está reproduzindo as conversas dos adultos). Considerando o alto nível de imaginação de uma criança, a minha realidade de adulta não foi tão ruim assim, pois consegui ser pelo menos uma das opções dos meus sonhos. Quando você entra para a faculdade, várias profissões idealizadas quando criança são descartadas. Não dá para ser advogado/bombeiro ou médico/astronauta. Bom, já na faculdade com vinte e poucos anos, você sonha em ser o tampa da profissão, imagina uma carreira de sucesso e que será uma referência na área (daí a realidade do estágio na qual várias pessoas gritam com você e te chamam de tapada o dia inteiro faz você cair na real). Mas tudo bem, se não deu para ser o super profissional do século, ainda resta o sonho de encontrar o príncipe encantado. Dez anos depois, o príncipe virou sapo e com um pouco mais de condições de enfrentar o mercado de trabalho, você vai à luta. Afinal, está com trinta e poucos anos e todo mundo sabe que as balzaquianas são um arraso profissionalmente e sexualmente (uau!). Algum tempo depois você continua dando o sangue no trabalho, subindo na carreira e encontra um novo amor. Legal, já é mesmo tempo de se acomodar, se dedicar ao verdadeiro amor e aproveitar mais a vida. Segundo casamento, filhos, novos lugares e novos empregos. Você começa agora a sonhar com o futuro para colher os frutos do trabalho, imagina uma aposentadoria tranquila com um restaurante riponga em Pipa. Já escolheu o lugar, o menu e a decoração. Está só esperando o tempo passar, terminar de contribuir com a p* da previdência para, finalmente, aproveitar a vida. No interlúdio, você acorda um dia e está sozinha. Já tem mais de quarenta anos e já não sabe mais o que sonhar. Já foram tantos sonhos roubados que fica difícil construir os castelos de novo. Bate o desânimo e você descobre que fez uma opção errada quando era criança, se tivesse escolhido corretamente, todo o resto poderia ser consertado. Afinal, por que não escolheu ser feiticeira? Calma, nem tudo está perdido! Sabe-se lá se ainda dá tempo...
domingo, 15 de maio de 2011
Diálogos
Eu imagino que quem estrutura um relacionamento na base da dependência deve sofrer muito quando está sozinho. O processo de recuperação da autonomia não é mesmo fácil, implica em cortar os laços de dependência, descobrir-se novamente como pessoa, se reestruturar e só depois conquistar a autonomia. Considerando esta lógica, deveria ser mais fácil sair de um relacionamento estruturado sobre o compartilhamento. Aqui reside um engano. Quando você estabelece uma relação de dependência, sente falta do que o outro proporcionava. Na relação de passividade, é a falta de alguém que era responsável por cuidar de nós. Não é uma relação de mão dupla, existe apenas a necessidade de suprir, e, de fato, deve ser um duro golpe quando se perde o provedor. Porém, na relação na qual se compartilha, existe um movimento duplo, as ações vão e vem na mesma proporção. Assim, quando se perde a outra parte, não se perde apenas aquilo que se recebe do outro, mas também o que se proporciona. No meu caso, a maior perda é o diálogo. Através de intermináveis conversas, as nossas trocas eram construídas, a palavra (escrita ou falada) era a nossa ferramenta para dividir, trocar, acrescentar e crescer. O mais curioso é que na minha relação com o Sr. T nenhum de nós dois era de tagarelar muito ou descrever detalhes intermináveis. Normalmente, eu contava alguma coisa, relatava as minhas impressões e ele encerrava a análise com um comentário curto. Isso não acontecia por falta de sintonia ou comunicação, pelo contrário! Era justamente por entendermos perfeitamente as necessidades do outro que as palavras não precisavam ser inteiras. Bastava uma síntese e um olhar para todo o resto ser esclarecido. Afinal, o que é o amor senão compreensão?
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Então, fazemos biscoitos!

A semana foi pauleira, uma sombra vinda de Mordor (Tolkien) se apoderou de nós e ficamos um fiapo de gente. Para dizer a verdade, não sei se eu fico arrasada quando D. Maricota desmonta no seu choro convulsivo antes de dormir com saudades do pai ou se ela fica triste porque percebe a minha tristeza. O fato é que nós duas andamos muito tristonhas e só hoje a nuvem começou a se dissipar. Diante de um quadro tão deprê, o que fazemos? Biscoitos! Colocamos a mão na massa (literalmente), misturamos a farinha, a manteiga e o açúcar. Cortamos os biscoitos em formatos fofos - coração, lua, estrela, beijo - e ficamos vigiando o forno até que eles ficaram dourados e deliciosos. Quase perdemos a hora da escola, almoçamos sopa requentada, mas o sorriso e o orgulho dela ao levar os biscoitos para a "tia" da escola fizeram todo o esforço valer a pena! Catei na internet mais de dez receitas diferentes de biscoitos e agora tenho um arsenal antideprê até o final do ano. Agora vocês já sabem, bateu a depressão? Assem biscoitos, meus lindos e mandem qualquer desequilíbrio espiritual/emocional para o raio que o parta!
domingo, 8 de maio de 2011
Dia das mães

Sexta-feira foi a festa da família na escola de D. Maricota. A escola não chama de dias das mães para não trabalhar na perspectiva da família padrão, mas no fundo o objetivo era esse mesmo. A festa foi a inauguração de uma vernissage com os trabalhos das crianças. Segundo D. Maricota, eles tinham uma música bem linda para cantar para as mães. O primeiro problema: eu tinha aula no horário, mas como as chuvas de Recife estão provocando o caos na cidade, a aula foi cancelada e pude vir para casa mais cedo. O segundo problema: o local. Eu não conhecia o lugar onde seria realizada a festa e apelei para o Google Maps e o GPS. Ambos funcionaram perfeitamente, mas quando nós chegamos ao local... Não tinha lugar para estacionar e fui obrigada a dar várias voltas no quarteirão. D. Maricota acabou dormindo no carro e o bairro é pouco recomendável, principalmente de noite. Consegui parar no lugar mais próximo, peguei D. Maricota no colo e praticamente corri pelas ruas até o local da festa. Quando entramos, ela empacou e disse baixinho: - Mamãe, é aqui que eu vinha com papai muitas vezes! Ele sempre me trazia aqui! Só então eu me dei conta que o tal lugar ficava ao lado da Casa Brasil do IFET, uma das unidades que ele coordenou durante três anos. O prédio da festa era um local de artes e exposições da Universidade, como ex-professor e da área, obviamente ele teria passado ali várias vezes com ela. Nem preciso dizer que a noite acabou para nós duas. Ela não quis mais sair do meu colo e assisti a peça que estava sendo apresentada com ela agarrada no meu pescoço. A inauguração da vernissage terminava com um coquetel, mas ela não quis comer nada (nem eu). Resolvi vir embora mais cedo com a certeza de que não deveria ter ido. Não é aconselhável para ninguém mexer na ferida que ainda não está completamente cicatrizada...