Já me senti assim muitas vezes... Invisível, angustiada, mas ainda assim, sem medo da morte!
Fonte: Revista Entremundos
Já me senti assim muitas vezes... Invisível, angustiada, mas ainda assim, sem medo da morte!
Fonte: Revista Entremundos
A pergunta foi simples e direta, resultado de uma conversa boba sobre comportamento: - E o Sr. T? Como ele chamava você? Estávamos conversando sobre como os casais se tratam, rindo dos apelidos ridículos que colocamos em nossa cara-metade quando estamos apaixonados, como Mô, Mor, Benhê etc. Acessei a memória buscando a resposta. Não encontrei de imediato. Procurei a memória auditiva de quando ele me chamava para alguma coisa. Sabia que ele me chamava de Ana, mas muito raramente... Como ele me chamava, meu Deus! Qual era o nosso tratamento? Tentei visualizar a cena do Sr. T entrando pela porta e caminhando em minha direção enquanto dizia alguma coisa. A dor foi inevitável. O fluxo de imagens reavivadas na memória é sempre doloroso... Eu conseguia reproduzir as imagens, mas não podia ouvir. Eu não conseguia lembrar! Pânico... Comecei a suar frio enquanto o meu coração dava pinotes. Como eu podia não lembrar! Como? Senti um nó na garganta, os olhos arderam com uma vontade enorme de chorar. Levantei da cama agitada e fui em direção ao quarto da filha mais velha:
- Filha, você se lembra de como o Sr. T me chamava? Ela me olhou espantada, pensou por alguns segundos e começou a descrever:
- Ele a chamava de Ana, nunca usou Bia ou Ana Beatriz. Chamava de "meu bem" e quando explicava alguma coisa para você dizia "minha querida". Quase o tempo todo dizia "queridinha"...
Isso! Queridinha... Ou minha querida... Sentei na cama aliviada. Isso! Pude visualizar novamente a imagem dele em várias situações me perguntando coisas ou me chamando. - Mas é claro, minha querida! Quer que eu faça isso, queridinha? Meu Deus, consegui lembrar! Quando eu resolvi escrever esse blog foi justamente para não esquecer as pequenas coisas do nosso cotidiano porque quando a dor é muito grande, o mecanismo de defesa do corpo (e da alma) apaga as imagens, as experiências e os sons da nossa memória. O registro de cada lembrança minha aqui no blog sempre me faz chorar, é inevitável. Mesmo assim, depois de mais de cem postagens, ainda assim, não foi o suficiente. Eu esqueci de algo básico e essencial: o carinho enorme com o qual o Sr. T me tratava!
May e Max é uma animação stop motion com uma história repleta de melancolia, mas tão real que é possível sentir um aperto no peito com a coragem do roteirista. "O filme acompanha dois personagens solitários, cujas vidas se cruzam pelo maior dos acasos: uma página aleatória aberta em uma lista telefônica. Motivada por uma dúvida infantil, a australiana Mary Daisy Dinkle, 8 anos, decide escrever ao nova-iorquino Max Jerry Horowitz, 44 anos. Junto à carta, alguns desenhos, uma barra de chocolate e a dúvida: "de onde vêm os bebês nos Estados Unidos". A correspondência inocente muda a vida de ambos para sempre, iniciando uma história que transcorre por mais de uma década". Não tem final feliz, os protagonistas são feios e a vida deles é um desalento só. E o mais perturbador? É assim mesmo que a vida é! Fiquei refletindo sobre como a nossa vida é uma compilação de momentos felizes que são pontuais, limitados e nem sempre recorrentes. Não andamos nas nuvens o tempo inteiro, não enxergamos cores vibrantes ou o calor do mundo em cada detalhe do nosso cotidiano. Passamos a maior parte do tempo fazendo coisas que não gostamos, em lugares que não queríamos estar enquanto sonhamos com aquele momento mágico de diversão ou descanso. Imaginamos um futuro pleno e repleto de felicidade enquanto vivemos o presente repetitivo e insosso. Invariavelmente, somos nós mesmos que sabotamos a nossa possibilidade de ser feliz, seja porque acreditamos no que a mídia nos diz sobre a felicidade ou porque não conseguimos domar o nosso caráter e ser fiel aos nossos desejos e promessas. Seja como for, Mary e Max é um relato singelo de nossas próprias reflexões e a falta de coragem em assumir o que realmente nos torna feliz.
O Sr. T frequentava um pequeno salão de beleza para fazer as suas tranças todo mês e era muito amigo da dona e da manicure. Por causa dele, eu comecei a frequentar o mesmo lugar e quando as duas se mudaram para trabalhar como funcionárias de um grande cabelereiro da cidade, eu acompanhei a mudança. Hoje, neste novo local, conversamos bastante sobre ele e nós três nos lembramos de uma história ótima sobre o meu ciúme e a comédia de erros que a vida pode ser. Como eu já contei aqui, o Sr. T tinha o costume de oferecer carona para muitas pessoas. Um dia, quando eu estava tirando as compras da mala do carro, encontrei um saco cheio de roupas.
- De quem são essas roupas? - perguntei.
- Ué, não sei. Não são suas? - ele respondeu distraído.
- Não, não são... - respondi enquanto tirava da sacola um vestido preto, algumas roupas de criança e uma bermuda.
- Então deve ser de alguém, provavelmente foi a minha mãe que esqueceu aí - disse ele distraído.
Exatamente naquele momento, eu retirei um sutiã verde rendado e lindíssimo de dentro da sacola.
- A sua mãe tem um sutiã desses? - falei já ficando com o pescoço vermelho e a voz alguns decibéis acima do normal.
Ele ficou visivelmente embaraçado e respondeu: - Rosângela! Deve ser de Rosângela! Semana passada eu dei carona para ela até a escola!
- Você está me dizendo que este sutiã é da sua irmã que é evangélica? É isso mesmo? Você realmente quer que eu acredite nisso?
- Mas eu não sei de quem é, oras! Se você não sabe, muito menos eu!- respondeu nervoso.
Bom, nem preciso dizer que eu rosnei durante semanas e o pobre Sr. T tomou o maior chá de abstinência sexual da história moderna. Meses depois, nós estávamos na cabelereira e ela de repente pergunta:
- T. você não encontrou uma sacola minha dentro do seu carro? Eu tenho quase certeza que perdi uma bolsa de roupas naquele dia que você me deu uma carona...
O Sr. T fez uma cara de alívio e disse: - Graças a Deus que você está dizendo isso! A sacola era sua! Viu, Ana? As roupas eram de Sara!
Eu, com a maior cara de bunda do planeta, ainda tentei colocar a história à prova:
- O sutiã verde é seu, q-u-e-r-i-d-a? - perguntei com a voz gélida.
- Mulher, eu pensei que tinha perdido o meu sutiã caríssimo! Foi presente de dia dos namorados do meu marido!
Enquanto isso, o Sr. T foi até o carro pegar a maldita sacola que foi examinada e avaliada por todos que estavam no salão. - O meu vestido, a bermuda de fulano... gritava Sara enquanto examinava cada peça de roupa perdida.
E o Sr. T: - É, Sara, nada como o tempo para fazer justiça com os inocentes...Você não imagina o inferno que eu vivi por causa dessa sacola de roupas!
Nem preciso dizer que depois que nós contamos a história, todo mundo caiu na gargalhada. Acho que estão rindo até hoje... Portanto, cremosas, quando vocês encontrarem um sutiã verde rendado perdido nas coisas do seu bofe, esgotem todas as possibilidades antes de dar um piti. Nada pior do que ficar com cara de tacho depois de uma comédia de erros como essa!
A professora de D. Maricota me disse que ela está, finalmente, lendo e escrevendo. Ela alcançou as outras crianças e chegou ao patamar desejável de leitura. As crianças escolheram um poema para ler hoje em sala e ela escolheu ler um pequeno poema da Cecília Meireles. E leu tudinho! Você não podem imaginar o tamanho do meu alívio... Definitivamente, os estragos não foram permanentes!
Agosto é um mês complicado, dia dos pais, aniversário de Dona Maricota, lembranças, lembranças e mais lembranças... Definitivamente, Dona Maricota parece ter encontrado um caminho para superar a sua própra tristeza e se divertiu bastante com as comemorações do seu aniversário. A festa foi na escola, mas no sábado tivemos um bolo em casa. O tema do bolo foi o livro "O Carteiro Chegou", a mais nova obsessão literária de D. Maricota. Os irmãos vieram, os primos, os vizinhos, a casa ficou bagunçada, as crianças tiveram dor de barriga por causa do consumo excessivo de porcarias e eu, como sempre, amaldiçoei as festas infantis do universo por três gerações.
Na continuação das comemorações, fomos visitar a mãe do Sr. T ontem. Foi muito doloroso ver D. Linda tão frágil, pequenina e, como sempre, comovida com a presença da neta querida, lembrança viva do seu filho preferido. Como sempre, ela costurou um vestido lindinho para D. Maricota e combinou de ir nos visitar no fim de semana levando a máquina de costura para fazer muitos vestidos com a ajuda da neta. Nem preciso descrever o sorrisão de D. Maricota ao se imaginar pilotando uma máquina de costura... Ontem, já no fim da visita, ela quis saber se D. Maricota ainda fala no pai, se faz perguntas ou se tem lembranças.
- Todos os dias, repondi. O bom é que a dor quase desapareceu e ela só fala das lembranças boas. Então, ela me disse uma coisa que doeu fundo no meu coração:
- Eu rezo todos os dias por ela porque de todos, foi ela quem mais sofreu com a perda do pai. E o pior de tudo: sofreu calada!
Sim, Dona Linda tem razão. Todos nós somos adultos e suportamos o revés da vida com a nossa bagagem estruturada em anos de experiência, conhecimento e resignação. Dona Maricota perdeu o seu "papaizinha" sem sequer entender como ou porque. Ela voltou a rir, mas procura entender todos os dias porque sofreu essa perda. E é por isso mesmo que eu continuo achando a vida muito injusta...
A minha apresentação no evento estava marcada para às 10 horas. Como sempre, eu terminei de organizar os slides algumas horas antes (essa incrível segurança para falar sobre os temas que domino de trás para frente ainda vai me deixar na mão um dia...). Descemos apressados para tomar o tal café da manhã colonial oferecido pelo hotel. Entramos distraídos de mãos dadas no salão com piso de tábua corrida e cortinas de renda na janela. Várias pessoas ocupavam as mesas, todos conhecidos de outros trabalhos e instituições. Era possível ouvir o zumbido das conversas do lado de fora do salão, mas assim que nós entramos, as conversas cessaram. Todos interromperam o que estavam fazendo e nos olharam. Sabe aqueles três segundos de constrangimento que você não sabe muito bem a razão de ser objeto de interesse das pessoas? Pois é... Uma olhada rápida e me dei conta de que éramos o único casal hospedado no hotel que não dormiu a noite toda e, provavelmente, não deixou ninguém mais dormir... Caminhei em direção à mesa com o rosto pegando fogo enquanto as pessoas nos seguiam com o olhar. As conversas foram retomadas em um tom mais baixo, embora as pessoas continuassem a nos olhar com curiosidade. Algumas pessoas sorriam como se estivessem satisfeitas em confirmar a identidade secreta dos amantes destemperados... Como diz uma amiga querida: na terra da desesperança, as pessoas se incomodam muito com quem encontra um amor! E eu, toda linda com o meu vestido de linho chique e (muito) corretivo para as olheiras, só pensei em uma coisa: nunca mais eu me hospedo acompanhada no mesmo hotel que os meus colegas de trabalho! Fim.
Nada mais puro do que um coração desavisado... Quando se está desarmado, é impossível prever o que pode acontecer. Todos nós temos certezas na vida no que diz respeito aos relacionamentos, sabemos disso porque conhecemos a regra e não as exceções. Eu costumo dizer que depois dos 40 anos existe só um tipo de amor possível: o amor pantufa. É aquele amor fofo, meigo, repleto de afinidades, estabilidade, no qual um completa o outro a partir das lacunas de sua vida. Cada um de nós carrega muitos vazios dos relacionamentos passados que queremos preencher e um relacionamento na época mais madura da nossa vida pode ser perfeito para isso. Definitivamente, não esperamos encontrar na maturidade um tipo de amor visceral que nos coloca de cabeça para baixo e muda o rumo de nossas vidas. O tipo de amor que faz o nosso coração bater forte, quase saindo pela boca quando ouvimos a voz do outro. Que nos faz perder o sono e a fome. Que supera as limitações físicas que temos e nos permite extrapolar todos os sentidos em um jogo erótico sem fim. Ou que transforma o cheiro do outro em uma espécie de afrodisíaco que nos persegue por todos os lugares. Até mesmo um amor que produza uma sensação de posse absurda, daquelas de querer prender o seu objeto do desejo no porão, amarrado com cordas e fita silver tape! Durante três dias, eu e o Sr. L dormimos pouco mais do que uma hora e meia por noite, fizemos cinco refeições, falamos de tudo sobre as nossas vidas e voltamos para casa como se um caminhão carregado com três ogivas nucleares tivesse nos atropelado. Nada de amor pantufa, nada de equilíbrio, nada de suavidade... Parecia que toda a história de duas vidas tinha se reunido ali, naquele lugar e naquele momento. Qualquer escolha diferente de um caminho em comum significaria subverter a ordem natural das coisas. Apesar de todas as dúvidas, sentenças inacabadas e (muitas) pressões externas, eu só pensei uma coisa: quando se encontra um amor como esse, não se pode recusar a viver o que nos foi reservado.
Cheguei ao hotel no meio da tarde, junto com os meus colegas que também iam participar do evento. Eu sabia que o Sr. L já estava lá desde cedo, a ideia inicial era nos encontrarmos no fim da manhã, mas o meu voo atrasou. O tempo chuvoso e a neblina baixa desencadearam uma crise alérgica em mim. Meus olhos estavam inchados e eu mal conseguia respirar direito quando entrei no saguão do hotel. Nunca mais vou esquecer dos detalhes daquele hotel em estilo colonial, o silêncio dos ambientes, os sons abafados, a tábua corrida no chão, a decoração com cortinas de renda e peças do artesanato local. A recepcionista era uma moça jovem e muito simpática, enquanto eu preenchia o formulário do hotel ela me disse com um sorriso romântico no rosto: - Tem uma pessoa esperando por você ansiosamente desde cedo! Ele estava inquieto, aguardando a sua chegada. Achei graça da expressão no rosto dela, ela parecia encantada com a espera prolongada do meu querido... Vislumbrei a sombra de uma pessoa alta atrás de mim, terminei de preencher o bendito formulário com o rosto pegando fogo e olhei para trás. O Sr. L estava lá, olhando a minha nuca sabe-se lá por quanto tempo... Corri na direção dele e enfiei a minha cara no seu peito, curtindo aquele abraço de urso delicioso. Ele levantou o meu rosto e me beijou, um beijo quente, molhado que fez os meus joelhos tremerem e as pernas virarem mingau. - Ridícula! Pensei enquanto o meu cérebro duelava entre o gosto e as sensações daquele beijo e o resto de racionalidade que ainda me restava. É, eu sei, parece coisa de adolescente, mas eu queria ficar pequeninha para entrar dentro da blusa dele e não sair nunca mais. Eu tinha tanta coisa para perguntar, tanta coisa para dizer... Não fiz nem uma coisa, nem outra. Segurei na mão do Sr. L e caminhei em direção ao quarto. Não precisava de mais nada naquele momento.