sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Fim de ano

Pode parecer estranho, mas não penso que 2010 só me trará lembranças ruins. Coisas boas aconteceram neste ano e a partida do Sr. T não pode ser marcada temporalmente por uma data. O impacto de sua partida vai reverberar o resto da minha vida, então seria injusto atribuir toda a responsabilidade ao ano de 2010. O Sr. T fez duas conquistas importantes que provocaram uma transformação profunda nele. Ele passou em primeiro lugar no concurso para Diretor de Artes Cênicas da UFPB com nota quase máxima (apesar de depois ter sido escandalosamente roubado) e também foi o primeiro colocado no concurso para professor de Artes do CEFET. O sucesso nas duas empreitadas fez com que o Sr. T decidisse voltar para a sua área de formação. Nunca vou esquecer do dia que saiu o resultado da primeira etapa da UFPB. Meu irmão viu o resultado primeiro e quando eu contei ao Sr. T, ele chorou copiosamente dizendo: - Eu sou um artista, sei que sou um bom artista! Ele teve a certeza de que estava no caminho certo. Enquanto eu estou escrevendo aqui, D.Maricota está brincando na varanda e inventando músicas com letras complicadas e extensas. Ele tenta rimar o final das frases, mistura vários ritmos e parece muito orgulhosa do resultado. Impossível não lembrar da cantoria do Sr. T e fico pensando o quanto ela não absorveu das intermináveis horas em que o pai cantou para ela. O repertório era extenso, variava de MPB até a música do Tatu no buraco. Quando ele pensava que ela já estava dormindo e interrompia a cantoria, ela invariavelmente abria os olhos e pedia: - Canta a do sol amarelo! E ele retomava a cantoria com sua voz grave. Senti muito por não ter gravado as suas cantorias e vou pedir ao nosso amigo Werter para conseguir as gravações das entrevistas que o Sr.T nas redes de TV locais. Eu quero muito que D. Maricota tenha as lembranças guardadas para sempre. Como ela mesma diz: não quero esquecer, mamãe!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Superando o Natal

Bom, conseguimos passar pelo Natal razoavelmente incólumes. Tivemos a tradicional ida na casa da avó na véspera, um pequeno almoço no dia 25 e o mais importante para D.Maricota, os presentes de Papai Noel! Depois de semanas de expectativa, ela abriu os presentes e ficou realmente surpresa por Papai Noel saber exatamente o que ela queria. Como sempre faço todos os anos, arrumei a sala com um cuidado especial e a novidade foi o enquadramento dos trabalhos do Sr. T que se transformaram em lindos quadros na parede da sala. Ao saber que eu estava levando os trabalhos para colocar moldura, D. Maricota perguntou: - Você vai colocar os trabalhos do papai na parede para não esquecer dele, mamãe? Porque eu também não quero esquecer... Como se fosse possível esquecer o Sr. T, com quadros ou sem quadros, com ou sem Natal!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

No Rio de Janeiro

Estivemos fora nos últimos dias, fomos buscar um pouco de conforto nas lembranças e nas amizades antigas. Dona Maricota se divertiu muito e aproveitou a viagem ao máximo, se comportando muito bem em todas as situações. Quando decidi fazer essa viagem, pensei em respirar outros ares e distrair Maricotinha com muitos lugares para visitar e coisas para ver. Não era exatamente uma fuga, mas a busca de um tempo para nós em um ambiente sem lembranças. Ela esperou pela viagem ansiosa e dramática com uma vontade tão grande de partir que não me pareceu a ansiedade comum das crianças nesta idade. Por isso mesmo, aproveitou ao máximo tudo o que podia ver, andou tanto que fez bolhas nos pés e não teve uma só coisa que não despertasse a sua curiosidade com inúmeras perguntas. Confesso que fiquei cansada, a quantidade de perguntas e reflexões da minha caçula derrubariam até Aristóteles! Em alguns momentos, ela mesmo perguntava e respondia, provavelmente cansada da lentidão do meu pensamento. Mas nenhuma fuga é perfeita e não é possível deixar a memória para trás: ela não deixou de chorar em alguns momentos com saudade do pai. Provavelmente pensava no que ele faria se estivesse ali conosco, se a carregaria no colo ou compraria algumas bugigangas para ela. Mesmo assim, tudo é válido porque se é certo que não podemos evitar o nosso próprio destino, tampouco podemos fugir do passado.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

As aventuras de Flapjack e Capitão Falange

O título deste post é sobre um desenho animado com uma história curiosa: um menino de rua (Flapjack) vive em Porto Tempestade dentro de uma baleia chamada Bolha, com seu amigo e mentor Capitão Falange. O sonho do menino é viver grandes aventuras como marinheiro e o desenho retrata o lado, digamos, decadente das grandes navegações. A partir de amanhã eu serei o Capitão Falange e Mariazinha será o Flapjack, juntas vamos em busca de muitas aventuras. Mesmo que a mais emocionante seja ver a decoração da árvore de Natal da Lagoa!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Shrek e Fiona

Desde o começo do nosso relacionamento, o Sr. T sempre se comparava ao ogro Shrek e afirmava que eu era a sua princesa Fiona. Ele se achava desajeitado, bruto, feio, tosco e grosseirão. Inadequado seria a palavra mais correta e ela se aplicava aos dois. Afinal, o Sr. T pertencia ao movimento negro e eu sou uma branquela loira aguada. O Sr. T era inadequado para mim, tanto quanto eu era para ele e isso só comprova o quanto vivemos de estereótipos e ideias pré-concebidas. Ele era um militante petista, um homem envolvido com as bases e toda a sua verve estava direcionada para a luta de um bem comum. Parece muito poético tal e qual um poema de Maiakóvski, mas o Sr. T pagou um preço alto por pensar e agir assim. Tenho a impressão que eu fui uma espécie de interlúdio na vida do Sr.T, uma nota fora do compasso da orquestra e que serviu apenas para que ele fosse feliz por um instante. Ele sempre dizia que uma obra para ser arte não podia ter função, ela tinha que rigorosamente não servir para nada. Penso que eu também não tinha função, não fiz do Sr. T um grande homem, não o ajudei a construir nada, não fui o seu esteio ou a sua base. Eu apenas fiz o Sr. T feliz por um tempo. Pode parecer pouco para algumas pessoas, mas considero suficientemente bom para mim.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Luzes de Natal

Hoje foi o dia de colocar as luzes de Natal na varanda e como essa era uma tarefa do Sr. T, fui assumir as suas atribuições com determinação e coragem (apesar do medo de levar um choque, eu tenho horror a choque elétrico!). Obviamente, Mariazinha não deixou de lembrar um só minuto do momento que vivenciava com o pai e entre a alegria de ver a nova iluminação e a angústia de suas lembranças, ia recitando as orientações: papai fazia assim, papai colocava assado, lembra de quando papai escorregou e quebrou as luzinhas, mamãe? E por aí foi... Depois de muitas respostas evasivas, humruns e ahrans, concluímos a tarefa sem nenhum susto maior. Amanhã preciso providenciar uma nova extensão, verificar se os fios resistiram ao vento constante, mas o resultado geral foi positivo. Bom, nós sabíamos que seria uma época difícil e lidar com o "espírito natalino" não vai ser fácil, mas já temos mais uma etapa vencida.

domingo, 28 de novembro de 2010

Pilar e Saramago

O amor e a juventude estão sempre associados em nossa sociedade, como se a paixão estivesse reservada aos mais jovens. A paixão avassaladora, o amor incontido e o desejo incontrolável são sempre características do ímpeto juvenil. O amor maduro é retratado quase sempre como algo passivo, morno e entediante... Exatamente por causa de tantos equívocos e estereótipos, eu adorei a reportagem sobre o amor de Saramago e Pilar del Rio. Ele se referia ao seu amor como "aquela que tanto tardou a chegar" (uma clara alusão ao fato de a ter conhecido já na meia idade). A maioria das fotos dos dois mostra o desejo incontido e a atração física evidente entre eles, fato bastante inusitado considerando a idade do casal. Como todos sabem, Pilar ficou viúva recentemente, mas segundo a reportagem, ela se recusa a carregar a viuvez como um fardo. "Tive a honra e a satisfação de ter vivido com Saramago por 24 anos e não vou seguir a minha vida enredando uma viuvez. Saramago cumpriu seu ciclo vital. Vivi antes com Saramago ao meu lado. Agora, com Saramago dentro". Bom, depois dessa não preciso dizer mais nada, não é mesmo?

sábado, 27 de novembro de 2010

A realidade, segundo Dona Mariazinha

Todos nós temos a pretensão de entender o universo das crianças. Pensamos que sabemos tudo, buscamos revolver a memória e trazemos nossas lembranças infantis à tona para dar conta da dose de imaginação cavalar que os pequenos nos apresentam o tempo todo... Lidar com a própria perda é muito mais fácil do que ver o sofrimento de uma menina de cinco anos, diariamente. Tenho ficado mais aliviada com os nossos últimos diálogos, pois percebo que a angústia está suavizando e ela começa a colocar as suas indagações para fora.
- Mamãe, eu tenho muita saudade do papai.
- É, filha? Eu também...
- Ele vai voltar um dia?
- Não filha, não vai. Quando a pessoa vai para o céu, não volta nunca mais.
- Mas eu queria ver papai de novo. Eu não gosto de não ter pai, só eu não tenho pai!
- Não é verdade filha, muitas pessoas não tem pai. O papai da mamãe também morreu, as pessoas morrem.
- Papai não morreu!!! Ele foi para o céu!
Ai, o que eu respondo agora? Mudo de assunto, canto uma música ou peço ajuda aos universitários?
- Mas filha, para ir para o céu a pessoa tem que morrer. Não pode ir para o céu sem morrer...
- Eu sei mamãe, mas papai não! Ele não morreu, ele só estava com um pouquinho de dor de cabeça... Ele não estava doente, nem velhinho, então ele foi para o céu, mas não morreu!
- Está bem, filha...
Ela fica em silêncio por um tempo e depois completa:
- Sabe mamãe, é que eu não gosto quando você diz que morreu. Não diz mais isso, tá bem mamãe?
- Está combinado filha, não vou mais dizer isso.
Continuo dirigindo, tentando manter o meu mundo em pé. A realidade para Mariazinha é assim, então, assim será!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A xícara quebrada

Há mais de vinte anos, uma grande amiga viajou para a Europa e me deu uma xícara de porcelana branca com um desenho e a frase You are the apple of my eyes. Eu guardei a xícara com todo o cuidado e ela continua intacta no armário da cozinha. Apesar das minhas inúmeras mudanças de casa (e até de estado!) ela continua sem um arranhão. Quando eu e o Sr. T começamos a comprar as coisas para a nossa casa, nos apaixonamos por lindas xícaras brancas que eram vendidas no supermercado Pão de Açúcar. Elas tinham estampas engraçadas com frases do tipo "Se quiser melhorar é só me chamar" ou "Seu mundo caiu? Vem para o meu que ele ainda está de pé". Nós adorávamos as xícaras e elas eram usadas todos os dias. Eu tinha uma superstição com elas, sempre acreditei que elas absorviam alguma coisa do nosso relacionamento e precisavam ficar inteiras para preservar nós dois. Eu já tinha a experiência da primeira xícara que guardei e a pessoa que me deu a xícara continua a minha melhor amiga até hoje. Lembro que quando contei como eu me sentia em relação as xícaras para o Sr. T, ele não riu ou achou que era alguma loucura, simplesmente disse que também tomaria muito cuidado com elas quando usasse ou na hora de lavar a louça. Na última segunda-feira, aproveitei o feriado para arrumar o armário da cozinha. Encontrei uma das xícaras com a borda lascada, uma rachadura enorme no corpo e a asa partida. Sentei na cadeira da cozinha olhando para a xícara e pensei há quanto tempo ela devia estar ali escondida. Misteriosamente, olhando para a xícara partida, pensei que agora fazia sentido que o nosso amor também tivesse se quebrado...

domingo, 14 de novembro de 2010

O amor e outros desastres

Acabei de assistir O Amor e Outros Desastres e a-do-rei a estética do filme. A mistura dos anos 50, as referências, os carros antigos e os equipamentos modernos, toda uma mistura inusitada que criou um resultado muito interessante. Os clássicos estão todos lá, desde Bonequinha de Luxo e A Malvada até o mais recente Sintonia do Amor. Fofo demais! Porém, mais do que o visual inusitado, o meu coração pulou com um diálogo do filme que parece que foi copiado das minhas conversas com o Sr.T. Jacks pergunta ao Peter (amigo que se recusa a viver o amor porque passa a vida idealizando os relacionamentos): E se o amor for uma escolha? E se não for um raio que cai nas nossas cabeças? E se for simplesmente uma questão de escolha, de querer se dar para uma pessoa sem esperar nada em troca? Foi exatamente essa questão que sempre orientou o meu relacionamento com o Sr.T, só que ele era a Jacks e eu o Peter. Enquanto tivemos liberdade para conduzir as nossas vidas, nós dois sempre fomos o resultado de nossas escolhas. The End.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Surpresa na doceria

Sem dúvida, a vida sempre nos surpreende nos locais mais improváveis. O Sr. T e eu sempre íamos comer sobremesas deliciosas em uma doceria que fica em Manaíra. As mulheres que trabalham lá sempre foram muito gentis conosco e, obviamente, o Sr. T era sempre recebido como um dia de festa. Talvez fosse a gentileza e atenção que ele sempre dispensava a todas elas, talvez fosse apenas o boa tarde e obrigado em suas ações ou quem sabe fosse a sua escolha por enoooormes pedaços de torta de chocolate (vai saber o motivo), mas elas sempre o tratavam muito bem. Era uma característica do Sr. T, ele sempre tinha muito cuidado ao tratar as pessoas humildes que desempenhavam a função de servir e não era por condescendência: ele realmente se identificava com essas pessoas em suas origens e trajetória de vida. Voltei lá umas duas vezes nas últimas semanas para adoçar um pouco a vida de Dona Maricota, já que a realidade não tem sido fácil para ela. Com o movimento sempre grande, não tive oportunidade de comentar nada sobre a partida do Sr. T, mas ontem a atendente mais velha me surpreendeu: - Onde está meu amigo que sempre escolhia os grandes pedaços de torta? Está de regime ou não gosta mais de nós? Fiquei desconcertada, com um peso enorme no coração por ter que contar o que tinha acontecido. Levei um susto com a reação dela, a moça simplesmente desabou num choro tão sentido que não aguentei e chorei junto com ela. Quando saí da loja, disse para a minha filha mais velha: - Se eu morrer e uma balconista chorar tão sentida pela minha perda, significa que consegui expressar toda a generosidade do meu coração e cada momento da minha vida valeu a pena!

domingo, 7 de novembro de 2010

Esperando na estação

Uma grande amiga de infância se separou do marido e nos meses seguintes ela sempre se queixava da solidão. Estar sozinha era o grande problema da separação e eu não entendia como ela podia se sentir tão sozinha com três filhos dentro de casa. Depois de algum tempo ela encontrou um novo amor e entendi que a solidão para ela era não ter com quem dividir as pequenas coisas do cotidiano. Eu não tenho problemas em fazer as coisas sozinhas, sim, às vezes cansa, mas não tenho uma natureza gregária. Gosto da solidão, sempre busco ter um espaço para refletir e meditar. Assim, não sinto falta do Sr. T por me sentir sozinha, pelo contrário. Resolvo as tarefas do meu cotidiano muito melhor sozinha do que acompanhada, antes um ficava esperando o outro resolver as pequenas coisas ou então encontrávamos algo melhor para fazer do que pintar as paredes ou trocar as lâmpadas. Agora não, as questões domésticas estão bem encaminhadas e justamente por ter consciência que não tenho problemas com a solidão ou com o gerenciamento da casa, é que me dou conta da imensidão de sua falta. Semana passada eu voltei para casa mais tarde do que o habitual e foi impossível não lembrar do nosso código. Toda vez que eu saía mais tarde, eu telefonava para o Sr. T e avisava que estava saindo naquele momento. Ele sempre respondia: - Venha com calma querida, estou te esperando. A frase era uma espécie de desdobramento de uma mais ampla que ele sempre me dizia quando ainda namorávamos: - Estou te esperando, vem morar mais eu... Me dei conta de que desde o dia em que nos conhecemos sempre estivemos viajando, curtas ou longas viagens, mas sempre indo ao encontro um do outro. O Sr. T não pode mais dizer que está me esperando e percebo que a minha solidão é irreparável porque não sinto falta de alguém me esperando (tenho várias pessoas me esperando em casa), eu sinto falta da generosidade da espera dele e tudo o que ela representava.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Estamos tão orgulhosas...

Eu e Mariazinha fomos votar juntas e ela ficou muito feliz em apertar a tecla confirma e ver a foto da Dilma. Como diria ela, "nós voltamos e ganhamos, né mamãe? Na festa da democracia e do projeto do PT para o Brasil, só faltou o Sr. T participando de tudo. Como ele gostaria de ter visto essa vitória!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Para acordar

Ontem eu acordei de manhã com uma voz chamando nitidamente o meu nome. Não é nada incomum, sempre que eu preciso acordar cedo para um compromisso importante a minha mente inquieta usa esse recurso. É como o "chute" no filme A Origem, um mecanismo que o cérebro usa para acordar dos sonhos. Normalmente é a voz de uma das meninas, mas ontem não. A voz que me acordou era a do Sr. T e levantei assustada e confusa até que me dei conta do que tinha acontecido. Sentei na beira da cama contente por ter ouvido a voz dele, muito mais clara do que os registros da minha memória. Porém, durante o dia, a tristeza veio vindo de mansinho, provavelmente porque eu reavivei a memória e ela foi se esvaindo ao longo do dia, ficando apenas a sensação de perda. Sei que parece transtorno bipolar ou esquizofrenia, mas já compreendi que é assim mesmo. É o tempo todo com vontade de rir pelas lembranças boas que aquecem o coração e chorar pela perda que deixou um buraco na alma.

domingo, 24 de outubro de 2010

São apenas objetos

Ontem eu consegui entregar vários objetos pessoais do Sr. T para que os meninos pudessem separar as coisas que gostariam de guardar e doar o resto. É muito difícil nos separarmos das lembranças, mas elas precisam ser positivas e não motivo de tristeza. Por coincidência, assisti ao desenho Up e percebi que o Sr. Fredricksen tinha o mesmo apego pelos seus objetos por causa das lembranças da sua falecida esposa. O filme mostra o descaso com os idosos e a importância de se preservar as suas lembranças (ele chega a arrastar a sua casa com uma corda por quilômetros!), mas também aponta para a importância do desapego e a necessidade de se seguir em frente. Sim, eu sei que são apenas objetos, mas são também "pontes" da minha memória afetiva que me conectam com o passado. Para se tornarem lembranças positivas, os objetos precisam adquirir um papel de representatividade especial, e não apenas ser o resultado da impossibilidade de selecioná-los. O avaro é aquele que deseja acumular apenas para "possuir" sem nenhum critério de representatividade que não seja a quantidade. O valor sentimental está na seleção cuidadosa daquilo que melhor representa a lembrança que você deseja conservar. Assim, guardei algumas coisas que eu melhor identificava com o Sr. T (pensando nas lembranças mais marcantes para Mariazinha) e deixei que o resto fluísse para outras mãos, com outras representações. O desapego não é um processo fácil, mas é sempre necessário.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

T. e Jerry

Eu nunca consegui entender, mas o Sr. T torcia para o Tom! Sim, o gato malvado Tom do desenho Tom e Jerry. Ele dizia que o rato era um sonso que atrapalhava o pobre gato inocente que estava apenas tentando manter a casa livre dos roedores asquerosos. Pois bem, a mania do Sr. T de acumular caixas de papelão cheia de cacarecos velhos trouxe um camundongo para dentro do nosso apartamento. Parecia mesmo o Jerry, pequenino, marrom com orelhinhas redondas. Quem nos alertou para a presença do ratinho fofo foi a nossa cadelinha yorkshire que ficou enlouquecida com a presença do rato dentro de casa. Depois de semanas de armadilhas, vassouradas e muito queijo desperdiçado, eu já não aguentava mais. Dei um ultimato para o Sr. T: - Você vai ou não vai pegar esse rato? Não é possível que ele seja mais esperto que você! E ele me respondeu irritado: - Mas eles são espertos! Você não está vendo que é igualzinho ao desenho animado? Pior é que ele tinha razão, quando vemos o desenho sempre pensamos como é possível tantas vassouradas e chineladas e mesmo assim o rato continuar serelepe. Na vida real também, mas desconfio que o Sr. T estava com pena de matar o ratinho. Finalmente, o Sr. T contando com a valiosa colaboração de nossa cadelinha Nala, conseguiu expulsar o rato de casa. Reparem que ele não liquidou o roedor, ele apenas o colocou para fora de casa, igualzinho ao desenho! Sorte a nossa que o Jerry não voltou para desfrutar as mordomias da nossa casa, porque se eu dependesse das habilidades do Sr. T para caçar ratos, já teríamos uma colônia gigante igual ao desenho Ratatouille!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sol, mar, areia e vento

Uma vez eu li um romance no qual o autor afirmava que remoer um problema era como cutucar um dente cariado, com a dor você percebe que ele está lá. Ontem eu fui caminhar na praia, um programa que eu só fazia com o Sr. T e que tinha um papel importante em nosso relacionamento porque sempre aproveitávamos esse momento para conversar ou discutir a relação. O litoral perto de casa é maravilhoso, seria um crime desperdiçar uma paisagem tão linda e um clima tão agradável. Caminhar molhando os pés na areia, sentir o vento no rosto, dar um mergulho ou simplesmente contemplar o mar, sempre nos ajudava a colocar as ideias em ordem. Sair para caminhar sozinha pareceu uma boa ideia nos primeiros dez minutos, mas depois de colocar os pés na estrada (ou melhor, na rua) a tristeza foi imensa. Chorei nos primeiros momentos, escondida atrás do chapeu e dos óculos escuros, mas fui até o fim. Fiz o nosso percurso de sempre, pensando nas inúmeras vezes que estivemos ali e quantas coisas eu tinha para dizer agora. Inútil, mas tive a sensação de que não caminhava sozinha e voltei para casa um pouquinho mais orgulhosa de mim mesma...

domingo, 17 de outubro de 2010

Eu e o Sr. T em Ilhéus

No começo do nosso relacionamento, o Sr. T vivia na Paraíba e eu no Rio de Janeiro. Nós dois tínhamos trabalhos que exigiam muito e fazíamos verdadeiros malabarismos para nos encontrar. Um dos nossos encontros foi em Ilhéus, que ficava no meio do caminho de algumas atividades que tínhamos na época. Passamos alguns dias explorando a terra de Jorge Amado e foi muito divertido flanear pelas ruas históricas da cidade com meus vestidinhos estampados como Gabriela Cravo e Canela. Nós ficamos em uma linda pousada na beira da praia, recentemente comprada por um casal que deixou São Paulo em busca de tranquilidade. Na primeira noite que passamos na pousada, fomos dormir quase oito horas da manhã porque eu tinha que entregar um relatório enorme e o Sr. T ficou me ajudando. No dia seguinte, dormimos até meio-dia e acordamos com o dono da pousada batendo em nossa porta achando que tínhamos morrido ou coisa parecida! Com o Sr. T, nem mesmo um simples passeio na pacata cidade de Ilhéus poderia ser desprovido de algo inusitado.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Faz um pouco de café?

Todos nós precisamos de um descanso de vez em quando, uma trégua, uma espécie de pausa no patamar para subir os degraus que restam. As minhas pausas estavam nas pequenas coisas do cotidiano: alguém para fazer um café, dirigir o carro, levar Mariazinha para passear enquanto eu vou ao salão de beleza, cozinhar o almoço no fim de semana... Enfim, coisas bobas que ninguém costuma dar valor no dia-a-dia, mas que são fundamentais para manter a sanidade mental de qualquer um. Nós dois sempre fazíamos coisas um para o outro, um doce, um pouco de café, comprar o pão na padaria, trazer um livro ou um filme. Coisas pequeninas que eram surpresas agradáveis para suavizar um cotidiano bastante árido. As frases ainda ficam na minha cabeça: - Benzinho, faz um pouco de café? - Vamos comer uma coisa gostosa na doceria? Talvez esta seja a minha descoberta mais dolorosa, não sinto falta de coisas grandiosas como as pessoas costumam dizer, sinto falta de coisas pequeninas que ele fazia e demonstravam o desejo de cuidar em cada uma de suas ações.

sábado, 9 de outubro de 2010

Resignação ou aceitação?

No domingo passado Mariazinha teve uma crise ao entrar em um novo brinquedo no shopping, ela literalmente entrou em pânico! Percebi com clareza que o sofrimento nada tinha a ver com o brinquedo (um carrinho que flutua na água), era uma crise de ansiedade. Ela tem sentido muito a falta do pai ultimamente, faz perguntas, cria teorias e chora bastante. Não é uma confusão pelo que aconteceu, é realmente a saudade que se instala e a cada dia que passa nos damos conta de mais coisas que não podemos mais fazer. No trajeto da viagem para o trabalho, com a choradeira inevitável de quando fico só com os meus botões, percebi que diante de uma tragédia em nossas vidas temos duas opções: ou nos revoltamos contra o mundo e descontamos nos outros as nossas frustrações e angústias ou então nos resignamos e aceitamos o que aconteceu, tentando ser uma pessoa melhor e mais generosa com os outros. Escolhi a segunda opção, é claro, mas me dei conta que a minha resignação não significa que compreenda e aceite a minha perda. A minha resignação está relacionada com a minha humildade diante da vida (porque não seria comigo, afinal não sou melhor do que os outros), e o reconhecimento de que se existe um projeto metafísico, eu não tenho a visão do todo. Porém, mesmo considerando que eu possa merecer cada milímetro do meu sofrimento, não consigo compreender a razão para o sofrimento da minha filha. Sei que existem coisas muito piores, crianças morrem e ficam doentes todos os dias, por isso mesmo tenho que me resignar diante da angústia, mas aceitar é outra coisa. Só é possível aceitar o que se compreende, em todas as dimensões possíveis e, sinceramente? É a única peça que falta encaixar no meu quebra-cabeça da vida. Por isso mesmo eu gosto muito do final do filme Cidade dos Anjos, quando o personagem do Nicolas Cage pergunta:- Estou sendo punido, é isso? E o amigo anjo pergunta: - Se você soubesse que ela iria morrer, teria feito outra escolha? - Nunca! Eu teria feito qualquer coisa apenas para ter sentido o calor da pele dela e a textura dos seus cabelos. É isso, a parte que me coube resumiu-se aos oito anos de convívio, mas se eu soubesse que seria tão breve, ainda assim, não teria feito outra escolha!

domingo, 3 de outubro de 2010

Hoje é o dia D

Ter vivido os últimos oito anos ao lado do Sr. T respirando política, faz com que o dia de hoje seja ainda mais difícil. Sim, a democracia está em festa com a possibilidade de eleger uma mulher presidente do Brasil! Para quem sempre acreditou no PT, a aprovação recorde do Lula é algo para se falar todos os dias para os conservadores: eu não disse? Mas o meu coração fica pequenininho porque o Sr. T não está aqui para participar da festa e sacramentar o seu voto no número 13. Vou votar em Dilma, mas para os outros cargos vou votar na legenda. Meu guru político não está mais aqui e não quero correr o risco de votar em alguém que possa ter prejudicado o Sr. T em algum momento. É, a falta do outro revela-se em todas as coisas do cotidiano. Todas mesmo, até em uma eleição!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Pelados em Tambaba

Assim que eu vim morar no nordeste, todos os finais de semana eu e o Sr. T saíamos para conhecer uma praia diferente. Como o litoral do Estado é extenso, dava para conhecer uma praia por dia, durante meses. Parecia que eu tinha encontrado o paraíso (não estou exagerando, os cariocas a-do-ram praia), os lugares eram maravilhosos, sem muvuca, estacionamento fácil, águas limpinhas e mornas. Seixas, Coqueirinho, Praia Bela, Gramame...até que chegamos em Tambaba. Uau, uma praia de naturismo na conservadora sociedade nordestina? Eu sempre provocava o Sr. T e os nossos diálogos eram muito maduros: - Você não tem coragem de encarar uma praia de nudismo! - Eu, é claro que tenho! Por mim, andaria pelado sempre! - Rá, então eu quero ver, duvido que você tenha coragem. - Eu vou! - Não vai, eu que vou! E assim seguimos por algumas semanas, até que resolvemos ir para a prova final. Chegamos em Tambaba, enrolamos um pouco do lado "familiar" (= pessoas vestidas) e subimos a trilha para a praia. Ao chegarmos lá em cima, um sujeito forte que tomava conta da entrada perguntou se íamos mesmo tirar a roupa (você não precisa tirar a roupa antes de chegar à praia, mas se passar daquele ponto, não pode chegar do outro lado vestido). Concordamos com as orientações e descemos as escadarias até chegar à praia. Fomos logo recebidos por uma espécie de guarda de naturismo, sem roupa, mas com um crachá pendurado no pescoço (uma das imagens mais insólitas e engraçadas que já vi até hoje). Não preciso nem dizer que até aquele momento, tanto eu esperava que o Sr. T desistisse, quanto ele pensava a mesma coisa. Turrões, fomos até o fim, só para provar quem era o mais fodão na história. Andamos na praia, vimos pessoas gordas, magras, novas, velhas, bonitas, horrorosas, até crianças (vestidas)! Depois de algumas horas, murchos e desapontados com a nossa aventura da coragem e liberação do nosso self, voltamos para casa. Para vocês terem uma ideia de como ficamos traumatizados com a experiência, nunca mais tocamos no assunto ou fizemos outra tentativa de ficar livre, leve e solto na natureza. Pelo menos, não com plateia cativa!

sábado, 25 de setembro de 2010

Perguntas e escolhas

Eu já disse aqui que não existe nada de positivo na perda, mas se tem alguma coisa que estou aprendendo, é ter clareza nas minhas prioridades. Se as coisas importantes da minha vida estivessem representadas em uma pirâmide, ela agora estaria de cabeça para baixo. Trabalhei muito nos últimos quatro anos, eu tinha três empregos e saía de casa muito cedo, voltando sempre à noite. O trabalho era a minha lei, eu estava disponível sábados, domingos e feriados. Depois que emendei essa corrida frenética com o doutorado, tudo ficou pior. Agora, a minha casa é meu castelo, todas as minhas energias estão focadas em cuidar de Mariazinha e do espaço em que vivemos. O mundo continua seguindo e não faz a menor diferença o fato de eu não estar mais matando um leão por dia. Segunda-feira, ouvi a seguinte pergunta de uma colega de trabalho:


- Por que você não veio na reunião? Fulano precisava do nosso apoio, você tinha que estar lá para apoiá-lo!


Mais zen do que um monge budista diante de uma mandala, respondi:

-Fulano não precisa do meu apoio para nada. Quem precisa de apoio hoje sou eu e ainda preciso apoiar a minha filha. Por isso mesmo, não estou disponível para apoiar nada nem ninguém por um bom tempo. Não sei quanto tempo vai ser, portanto, é bom vocês se acostumarem com isso!


# Detalhe: eu não estava na tal reunião porque não era o meu dia de trabalho e Mariazinha passou o dia vomitando por causa de uma virose. Quando se tem duas pessoas para dividir a responsabilidade, é possível distribuir as crises domésticas, mas quando estamos sozinhos, é preciso fazer escolhas. Tenho certeza absoluta de que fiz a escolha certa.

domingo, 19 de setembro de 2010

Torta de maçã

Eu sempre sonhei com a torta de maçã americana clássica, a mesma dos desenhos animados (Branca de Neve, Mickey etc.), mas nunca consegui uma receita remotamente próxima do que eu via nos filmes. Tenho que confessar que o meu forte na cozinha nunca contemplou o setor de massas, pelo contrário, sou uma negação com tortas e bolos. Meus problemas acabaram quando conheci o Sr. T, pois ele tinha trabalhado a maior parte de sua infância e juventude na padaria do pai, um homem simples, mas que fazia o melhor pão que já comi na minha vida! Assim, o Sr. T dominava muito bem os mistérios das massas básicas e ele ficava sempre responsável por sovar, misturar, medir e assar todas as receitas que exigiam um especialista na área. No fim de semana passado, eu e Mariazinha nos aventuramos na cozinha para fazer biscoitos, e resolvi experimentar uma receita de torta de maçã que encontrei no blog SugarNut. Sem o apoio do meu especialista, me debrucei sobre os mistérios da massa e o resultado foi supreendentemente bom! Consegui fazer uma torta com a massa mais deliciosa da minha vida, Mariazinha fez os seus biscoitos e terminamos o fim de semana com a barriga cheia de torta de maçã com sorvete e biscoitinhos com leite. E quem ainda tem dúvida da existência de anjos na cozinha?

sábado, 18 de setembro de 2010

Em sala de aula

Tive uma semana particularmente difícil, fiquei doente, o trabalho foi puxado, me aborreci com os problemas de Mariazinha na escola e tive momentos de muita saudade (e ela também, ao mesmo tempo!). Todas as noites Mariazinha pedia que eu contasse uma "história do papai" antes de dormir e mesmo tentando manter uma atitude positiva, eu sempre chorava depois que ela dormia. O desgaste emocional foi demais, sexta-feira entrei em sala de aula e percebi que tinha trocado os slides da aula. Na aula anterior trabalhei um conteúdo antes do outro que seria correto e senti que precisava contar para as minhas alunas o que tinha acontecido. Eu não podia mais continuar mantendo o profissionalismo como se tudo estivesse bem. Sou professora, mas também sou gente! Depois de me atrasar quase 30 minutos para a aula (por causa de uma reunião) e encontrar a turma toda me esperando, percebi o meu erro na troca do material e decidi não dar nenhuma desculpa esfarrapada. Contei o que tinha acontecido, o momento difícil pelo qual estou passando e agradeci a sorte de ter uma turma tão boa. O fato de ser uma turma excelente, interessada e comprometida, me fez sentir motivada a trabalhar melhor e isso foi muito bom para manter a minha estrutura firme. Minha gente, eu fiquei impressionada com o que aconteceu: a turma inteira chorou junto comigo! Algumas alunas tiveram que sair da sala para se recompor e eu ali, firme, lutando para chegar até o fim. Parecia uma novela mexicana e eu era a própria Maria do Bairro... Apesar da tristeza e do desgaste emocional, eu me senti muito melhor por ter sido honesta com elas. Apresentei o material correto, mostrei um filme interessante e encerrei a aula bem mais leve. Refletindo depois, percebi que é neste tipo de educação em que eu acredito e se perdi a armadura de intocável, ganhei o carinho e o apoio de um grupo que considero de excelência dentro do curso.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Uma menina chamada Sofia

Mariazinha não queria ir à escola, inventava mil desculpas e eu fiz corpo mole pensando que ela estava com dificuldades em superar a perda do pai. Semana passada descobri que o motivo era outro: uma menina da sala dela está enciumada (provavelmente pelo excesso de atenção que ela vem recebendo nas últimas semanas) e resolveu sair no braço para extravasar a sua irritação. A menina é mesmo problemática, no final do ano passado quase foi convidada a não se matricular novamente, mas como a escola é zen e alternativa, resolveram trabalhar a agressividade da menina. Mariazinha sempre dizia que Sofia batia em todo mundo, mas quando perguntávamos se batia nela também, ela respondia: - Ela não me bate porque eu corro muito! Parece que correr não tem adiantado e a coisa tomou uma proporção tão grande que se ela entrar na escola e a menina estiver lá, ela não quer ficar. Ontem, ao buscar Mariazinha na escola, vi quando a menina partiu para cima dela com o corpanzil avantajado. Mariazinha se encolheu e correu na direção da professora, assustada. Olha, se não fosse a minha formação em educação pós-moderna, a minha coleção de diplomas, o respeito à diversidade e a compreensão infinita da natureza humana, eu teria dado um chilique!!! Mesmo sendo fina e tentando manter a calma, conversei com Mariazinha (na frente da professora) dizendo que se Sofia batesse nela novamente, ela deveria enfrentar a menina e avisar à professora. Esse foi o discurso direto, mas o discurso oculto pode ser resumido na seguinte frase: se for agredida novamente, encha a cara dessa menina de sopapos!!!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Riiiiooo de Janeiro!

Alguns meses depois de nos conhecermos, o Sr. T veio me visitar no Rio de Janeiro. Eu queria muito que ele conhecesse os lugares e os passeios que eu amava, como flanear no centro do Rio, andar nas barcas, ir ao Centro Cultural Banco do Brasil, enfim, as coisas que só quem mora no Rio consegue entender. O primeiro choque cultural foi a chegada ao aeroporto, já que o Galeão é um mundo. Como eu não sabia por qual companhia aérea ele tinha viajado, perguntei ao celular: - Onde você está? Ele respondeu surpreso: - No desembarque, oras! Eu insisti: - Mas em qual desembarque? Em qual terminal você está? A resposta: - Não faço a menor ideia... Se vocês conhecessem o aeroporto de João Pessoa, entenderiam a confusão do Sr.T. O aeroporto (que foi reformado recentemente) parecia uma rodoviária, era todo aberto com apenas uma sala de embarque e outra de desembarque. Dava para ver os passageiros se acomodando dentro do avião e quando você se aproximava do aeroporto, conseguia saber se o voo já tinha aterrisado ou não, porque era possível visualizar todas as aeronoves no pátio (não mudou muita coisa, mas agora temos granito e vidros em tons de verde para embelezar o ambiente...). Vencido o primeiro round, levei o Sr. T para conhecer o Rio de Janeiro, principalmente o centro do Rio. Todos os flanelinhas, malandros e figuras pouco recomendáveis das ruas cumprimentavam o Sr. T, de forma ostensiva ou discreta. O visual dele era uma espécie de salvo-conduto por aqui... Eu o levei para almoçar no meu restaurante favorito, um lugar especializado em saladas na rua da Assembleia, quase em frente ao Lidador. Segundo o Sr. T, ele ficou encantado com a variedade de saladas, porque se o buffet de verduras era bom assim, imagine a parte de carnes! É claro que ao chegar na parte das carnes o máximo que ele conseguiu encontrar foi uma torta de frango ou filé de frango grelhado. Ele dizia que tinha sido a folha de alface mais cara que ele comeu na vida! Mas o ponto alto do nosso passeio foi a saída do restaurante, na hora de pagar a conta no caixa. O gerente olhou para o Sr. T, abriu um sorrisão e disse: - Estou te reconhecendo! É uma honra você por aqui! Todo mundo que estava na fila olhou para a gente e muito sem graça o Sr. T disse: - Você deve estar me confundindo com alguém... E o gerente insistiu: - Nada disso, eu sou muito bom fisionomista. É você mesmo! Eu sei quem você é! Já desistindo, o Sr. T respondeu: - Tá certo! Diz aí, quem sou eu? E o gerente radiante: - O tocador de sanfona do grupo que tocou na nossa festa de final de ano! Eu quase tive um troço de tanto rir... Mais tarde, já em casa, o Sr. T me pergunta: - Mas tinha que ser tocador de sanfona? Deve estar escrito na minha testa que sou nordestino! Por que ele não me confundiu com um saxofonista ou com um percusionista? E olha que isso foi só o começo da nossa aventura a dois...

sábado, 11 de setembro de 2010

Bastardos Inglórios

O filme do Tarantino foi o último que assisti junto com o Sr. T. Eu fiquei com vontade de ver o filme depois que li a crítica no blog da Lola (ela fez uns dois ou três posts sobre Bastardos Inglórios) e o Sr. T chegou com o filme em casa para assistirmos no meio-feriado proporcionado pelo jogo do Brasil na Copa. Nós sempre tínhamos coincidências assim, eu queria comer uma coisa, ele adivinhava, eu lia um livro e ele estava interessado porque ouviu falar sobre ele no trabalho. Bom, voltando aos Bastardos, nós adoramos o filme! Só o Taranta mesmo para criar algo inusitado na história mais batida da indústria cinematográfica. As atuações magistrais ajudam muito, mas o final é fantástico. Decidimos pelo vilão Coronel Landa, como o nosso ator/personagem favorito, ele é impressionante... Claro que o Sr. T adivinhou o final, ele sempre fazia isso e detalhava os links na construção de roteiro. Coisa de escritor... Foi uma pena que a cópia do nosso filme estivesse com defeito, tivemos que assistir a opção dublada e o gancho do filme está relacionado com os sotaques dos personagens (tanto que o Tarantino escalou somente atores nativos para os papeis, alemão falando alemão, americano falando inglês etc.). Gostamos tanto da história que ficamos decepcionados com a limitação da dublagem e combinamos que veríamos o filme de novo no fim de semana seguinte. Fizemos planos e combinamos coisas porque naquele momento ainda acreditávamos que existia o futuro. No dia seguinte ele foi internado, nosso mundo se desfez e acho que nunca mais vou conseguir ver Bastardos Inglórios novamente...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Nem tudo está normal

- Filha, me dá um beijinho...
- Não!
- Poxa, mas mamãe ama tanto você... Só um beijo!
- Não, mamãe! Não quero, estou ocupada desenhando.
- Ah... Então eu vou embora para outra casa, procurar uma filha que me dê muitos beijinhos!

Ela larga o desenho e vem correndo em minha direção, visivelmente angustiada:
- Não pode! Se você for embora, quem vai cuidar de mim? Eu vou ficar sem pai e sem mãe, é?
- (...) Desculpa filha, mamãe não vai embora, não. Eu estava só brincando. Mamãe te ama, tá?
- Tá!

Lembrete para a mãe tosca que pensa que tudo está normal: riscar essa brincadeira idiota do repertório, URGENTE!!!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Ansiedade e medo

Não posso ser considerada uma pessoa medrosa, pelo contrário, os desafios da vida sempre me exigiram envergar, mas sem quebrar. Nos últimos quatro anos trabalhei em uma cidade distante da minha casa, o que me fazia enfrentar sozinha uma viagem de duas horas na estrada. A volta era quase sempre depois das 20 horas e eu não fazia isso por falta de juízo, era mesmo uma necessidade. O trabalho me exigiu muitas viagens, de avião, de carro, de ônibus, para lugares simples e complicados. Mesmo assim, continuei enfrentando os desafios com tranquilidade. O curioso é que mesmo mudando de emprego, de cidade ou de função, os desafios eram sempre os mesmos, como um carma que precisava ser superado. As exigências da sala de aula sempre foram um alento na minha vida, eu simplesmente adoro estar com os meus alunos, faço isso desde que eu tinha seis anos de idade (meu irmão que o diga, coitado!). Exatamente por isso tudo que estou contando é que não me reconheci no começo deste semestre. No primeiro dia da minha volta ao trabalho peguei uma chuva torrencial, que fez a cidade inundar. Enquanto a água subia do lado de fora do carro, eu entrei em pânico. Só conseguia pensar no que eu faria se o carro quebrasse. Para quem eu iria ligar? Quem iria me socorrer? Entrei na minha sala aos prantos, desmoronando em uma crise de ansiedade sem fim. Na semana seguinte, minha primeira aula. Todos os semestres quando chega ao final da primeira aula, os alunos me perguntam de onde eu sou por causa do sotaque e eu sempre contava a mesma história: eu vim morar no nordeste porque me apaixonei por um paraibano, que era uma história de amor, blá,blá... As alunas adoravam a história, a empatia era imediata e sempre era muito divertido. Agora, foi a primeira vez que respondi secamente ao ouvir a pergunta de sempre: - Eu vim do Rio. O programa da disciplina está na copiadora do térreo. Não fui grosseira, é claro, mas fui seca e cortei o assunto para não desmoronar. Mesmo assim, saí da sala gelada, com as mãos molhadas e o corpo tremendo. Um medo enorme de não ser a mesma pessoa, de não conseguir ser generosa e boa com as pessoas novamente. Tem horas que a dor é tão aguda que você quer gritar com as pessoas que reclamam das coisas banais, como o atraso de alguém ou a falta de um aviso na porta. Felizmente, a ansiedade diminuiu e tenho conseguido ser quase a mesma professora com os meus alunos. Talvez com um pouco menos de brilho e entusiasmo. Envergando novamente, sem quebrar...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Salada x colesterol

Como todas as pessoas que perdem uma pessoa querida de algum mal súbito, eu também fui ao médico e fiz todos os exames possíveis. Descobri algumas coisas pequenas (mas que exigem tratamento) e o que mais me incomodou foi o nível elevado de colesterol. Desde o resultado do exame tenho feito um esforço para comer menos e melhor. Não que a minha alimentação não seja saudável, estou apenas transformado-a em incrivelmente saudável. Se eu não ficar verde e desnutrida, serei uma planta, digo, uma pessoa muito mais saudável... Até o ano passado, o Sr. T tinha uma alimentação razoavelmente balanceada. Pouca carne vermelha, quase nenhuma fritura e um pouco de comida japonesa. Lamentavelmente, ele perdeu o pai no ano passado, vítima de um câncer de estômago. O pai do Sr. T sucumbiu enfraquecido pela quimioterapia e desnutrição. Desde então, o Sr. T passou a exagerar na alimentação, comendo muito mais sal do que deveria e consumindo alguns alimentos que não poderiam ser classificados como saudáveis. Em nossas conversas, ele dizia que ter acompanhado a doença do pai o fez encarar a questão da alimentação de outra forma, como ele tinha boa saúde, deveria aproveitar melhor e comer as coisas que gostava. Claro que foi uma decisão emocionalmente acertada, embora desastrosa do ponto de vista da saúde, mas nunca, eu repito, nunca em nossas consultas médicas com os cardiologistas, eu ouvi qualquer determinação de restrição alimentar. Os médicos receitavam os remédios para hipertensão crônica e sugeriam uma nova visita dentro de seis meses. Até ele ser internado, eu nunca tinha ouvido falar em hipertensão maligna e sequer sabia que um quadro de hipertensão crônica poderia evoluir para uma situação crítica. Não é possível dizer que foi a alimentação que desencadeou o descontrole da pressão arterial, é muito fácil (e perigoso) fazer conjecturas agora. Como já dizia Sartre, "se" é uma palavra de suas letras, sinônimo de inutilidade... Apesar disso, não posso fugir da responsabilidade de que Mariazinha só conta comigo agora. Portanto, se comer salada poderá ajudar a manter a minha saúde em dia, estou disposta a virar herbívora. Ou uma planta!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Diários de motocicleta

Pode parecer que algumas histórias que eu conto aqui são uma versão exagerada dos fatos, mas posso garantir que aconteceram assim mesmo. A vida com o sr. T não tinha nada de monótona...Logo depois do nascimento de Mariazinha, assistimos ao filme Diários de Motocicleta e o Sr. T decidiu que iria fazer uma viagem de moto com ela assim que ela completasse quinze anos. E não era uma moto qualquer, ele queria algo do tipo Harley Davidson! Não, prezado leitor, não reclame com a mensageira, é óbvio que eu pensei que era apenas uma maluquice passageira... Os anos foram passando e volta e meia ele retomava a história da viagem, e eu sempre cortando: - Mas você tem catarata! - Eu vou operar, respondia ele. Eu insistia: - Mas você tem dores nas costas, como vai aguentar passar horas em cima de uma moto? - Por isso mesmo estou fazendo pilates, era a resposta. Durante um bom tempo ele não falou mais no assunto, mas cerca de uma semana antes de morrer, ele chegou em casa do trabalho e sentou no sofá com Mariazinha. Eu estava na cozinha e ouvia a conversa dos dois. - Você gosta desta aqui? perguntava ele. - Eu gosto, ela é brilhante! respondia ela. Quando eu sentei junto com eles, vi que os dois estavam estudando um folheto de propaganda com vários modelos de moto. - Meu Deus, você ainda não desistiu dessa ideia maluca? Já se deu conta que quando ela estiver com quinze anos você vai estar com sessenta e dois? Caia na real, pelo andar da carruagem você vai estar gagá até lá! Ele continuou rindo e nem me deu bola, do mesmo jeito que fazia quando eu estava grávida e ele dizia para todo mundo que se fosse um menino, iria se chamar Ptolomeu Petrônio... Semana passada, dei uma carona para a minha sogra e durante o caminho ela me contou que o Sr. T tinha pedido aulas para dirigir a moto do sobrinho! Eu quase subi na calçada ao ouvir essa história e fiquei pensando se ele realmente seria capaz de colocar o plano em prática... Afinal, ele já tinha uma comparsa, procurava as aulas e estudava o preço das motos. Olha, nós nunca tivemos uma briga séria, mas diante desse quadro, não tenho a menor dúvida de que nós dois iríamos parar nas páginas policiais! Nem acredito que perdi a oportunidade de protagonizar o barraco do século...


# Tá certo, estou exagerando, o máximo onde iríamos parar seria no Conselho Tutelar e eu levaria a pior porque todo mundo conhecia ele por aqui...

domingo, 5 de setembro de 2010

Vejo flores em você!

A reestruturação do cotidiano leva tempo para se consolidar, é um processo de adaptação lento e doloroso. Comprar menos comida, por exemplo, porque sempre sobra o que o outro comia com mais frequência e falta o que ele costumava comprar. A quantidade de café é um duelo diário, afinal, como fazer café para uma pessoa só sem que fique ralo demais ou forte como café de bêbado? A casa definitivamente está mais organizada, o Sr. T era quase um caso de polícia quando o assunto era arrumação. Agora, nada de papelada em cima da mesa, roupas espalhadas e sapatos jogados pela casa. É, a casa está mais arrumada (sonho de qualquer amiga dona-de-casa), mas é uma casa triste. Os finais de semana sempre são mais complicados, é impossível não perceber a ausência dele. Durante a semana a vida é corrida, aulas, reuniões, contas para pagar, mas nos finais de semana a ficha cai com força. A nossa rotina nos finais de semana era sempre a mesma: acordar mais tarde e decidir o que fazer, podia ser uma visita, um cinema, uma volta no shopping, ir para cozinha fazer um almoço especial... Programas básicos, sem nada de especial e que envolviam, essencialmente, estarmos juntos. Hoje encontrei uma supresa na varanda do apartamento. Quando a nossa filha nasceu há cinco anos atrás, compramos algumas plantas para colocar na varanda do apartamento, simulando uma espécie de jardim. Uma delas é uma espécie de lírio branco que floresceu apenas duas vezes durante esses cinco anos, mas hoje (!) desabrocharam duas flores lindas (sim, são as flores da foto). Podem me chamar de romântica, mas não pude deixar de imaginar que elas formavam um casal e na mesma hora lembrei da música do Ira! Se as flores fossem um recado do Sr. T para que eu acredite que tudo vai ficar bem, não poderia ter feito meu coração ficar mais feliz!


De todo o meu passado
Boas e más recordações
Quero viver meu presente
E lembrar tudo depois...

Nessa vida passageira
Eu sou eu, você é você
Isso é o que mais me agrada
Isso é o que me faz dizer...

Que vejo flores em você!...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sobre política

A esta altura do campeonato, na véspera da eleição, as discussões já estariam pegando fogo aqui em casa. O Sr. T amava a política (apesar da política não gostar tanto assim dele) e já tinha exercido alguns cargos no legislativo e no executivo pelo Partido dos Trabalhadores. Ah, o PT... Além de acreditar na política enquanto exercício da democracia, ele era completamente apaixonado pelo PT. Ele tinha fotos ao lado de Lula (provavelmente do período jurássico, eu acho), com Cristovam Buarque, José Dirceu e outros tantos. Eu sempre implicava, e fulano, você conhece fulano? E Beltrano, se você o encontrar, ele te cumprimenta? Ele sempre modesto dizia, talvez, provavelmente, não tenho certeza, mas que ele me conhece, conhece! É claro que eu sempre duvidava, até que um dia, caminhando na praia, um senhor parou para falar com ele de forma bem camarada. Era o Senador C. e fiquei espantada com a cordialidade do sujeito, que sequer pertencia aos quadros do PT, e sim ao partido adversário! Depois desse dia, parei de duvidar do Sr. T... Eu morria de rir com as histórias que ele contava sobre as brigas nas reuniões do partido. Segundo ele, quando um grupo percebia que ia perder uma votação importante, começava o quebra-quebra para criar um tumulto infernal e suspender a reunião. Aliás, as reuniões eram um capítulo à parte, existia a reunião para falar sobre a reunião que tinha acontecido, a reunião para falar da reunião que analisou a reunião principal e assim sucessivamente. Mulheres ciumentas não devem se relacionar com petistas, eles não tem hora para invadir a sua casa e estender uma conversa chatérrima até a madrugada. Quando eu estava indignada com alguma aliança espúria, ele filosofava: Em política, a roda grande passa dentro da roda pequena... Eu esbravejava: Como assim? Quer dizer que vale tudo? E ele respondia elegante e romântico: Política é a arte de aproximar os inimigos. Se são amigos, não precisariam da política, certo? Aliás, é preciso registrar que o Sr. T previu a aliança maluca do PSB com o PSDB aqui no Estado com bastante antecedência, sempre dizendo que não iria funcionar (no presente momento, o candidato da estranha aliança deve perder logo no primeiro turno). Com a política na pauta do dia, passo os dias olhando para as paredes e sentindo uma falta imensa do meu interlocutor. Quando você sente falta até das discussões, está bem perto de começar a questionar a sua própria sanidade...

domingo, 29 de agosto de 2010

Os filhos do Sr. T

Eu já falei aqui de Dona Mariazinha, proprietária da nossa família, mas o Sr. T tinha outros dois filhos já adultos e uma netinha. Isso significa que Mariazinha é tia de uma menina fofucha, poucos anos mais nova do que ela. Tia e sobrinha brincam de massinha e de boneca juntas! Esqueçam tudo sobre as histórias de conflitos familiares edipianos e disputas de novela, os filhos do Sr. T são as criaturas mais doces e boas que eu já conheci na vida. Se a minha vida financeira fosse folgada, daria para eles tudo o que daria para as minhas filhas, sem pensar duas vezes. Na nova organização do meu cotidiano, tenho contado com eles para cuidar de Mariazinha, já que a opção de um transporte escolar agora seria complicada demais. A tarefa de levar e buscar Mariazinha na escola era do Sr. T e, justamente por isso, estamos fazendo um esforço concentrado para que ela não se sinta abandonada. Sexta-feira, ela chegou com dois jogos novos que ganhou do irmão e resolvi colocar um pouco de ordem na casa: - Filha, você não pode ficar pedindo para seu irmão comprar jogos e levar você para passear o tempo todo. Não está certo! Ela me olhou e disse muito séria: - Mas eu não pedi, mamãe! É que ele sabe tudo o que eu gosto e eu nem mando ele fazer nada, mas meu coração fica muuuuito feliz, sabe? Na mesma hora percebi que ela já tinha encontrado um substituto para fazer de gato e sapato...

sábado, 28 de agosto de 2010

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Ontem, ao folhear a minha tese com uma aluna, me deparei com a folha de agradecimentos: "ao meu companheiro, Sr. T, que me fez pular de mais uma ponte em nossa caminhada", não pude evitar as lágrimas e fiquei com raiva de mim mesma. Afinal, até quando eu vou ter líquido suficiente para continuar chorando? Pensei em como seria bom apagar aqueles momentos terríveis da minha memória e lembrei do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Racionalizando melhor a minha angústia, percebi que para apagar os momentos ruins, eu teria que esquecer também as coisas boas. Eu estaria disposta a esquecer toda a minha história com o Sr. T para superar a minha tristeza agora? A resposta é não, por uma razão simples: as pessoas que são importantes em nossa vida tem um papel tão essencial que tornam-se uma parte de nós mesmos. Eu sou o que sou hoje porque uma parte do Sr. T está under my skin, na minha própria pele. É interessante como as pessoas próximas sentem a necessidade de completar a lacuna, você ainda é jovem, vai encontrar alguém, será feliz novamente...Pessoas não são como um vaso quebrado ou como um emprego que você troca e está tudo resolvido. Não sofro com a perda da figura do marido provedor e protetor, até porque o Sr. T nunca desempenhou esse papel. Sinto falta apenas dele ser... Quem diz que o sofrimento traz algo de positivo, está mentindo, nós não nos tornamos melhores porque sofremos (isso faz parte do pensamento cristão) e a morte não traz absolutamente nada de positivo. Apenas faz parte da nossa história.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O maníaco da lanterna

Há alguns anos o Sr. T trabalhava para um grande projeto de inclusão digital do Governo Federal, o que o obrigava a viajar constantemente para Natal. Ele costumava voltar à noite e sempre reclamava que enxergava pouco por causa dos farois dos outros carros. Na verdade, o Sr. T tinha catarata que foi diagnosticada mais tarde. Enquanto ele não ia ao oftalmologista, continuava acreditando que tinha apenas uma sensibilidade aos farois. Certa noite, ele me liga avisando que ia demorar porque as luzes de um caminhão tinham deixado ele momentaneamente cego e o carro caiu dentro de um buraco na estrada. Pergunto se ele está bem e ele responde: - Está tudo certo, foi só o carro que quebrou a suspensão. Já estou chegando. Carro quebrado, a solução foi ligar para o seguro enviar o reboque. Horas depois, o Sr. T chega em casa todo estropiado, com os braços e o rosto arranhados e mancando. - Você não disse que não tinha se machucado? perguntei espantada, já imaginando que o Sr. T tinha mentido para não me deixar preocupada. Fazendo caretas de dor, ele responde: - E não tinha! Eu precisei olhar a placa do carro no escuro para chamar o seguro, escorreguei no barranco e rolei quase dez metros barranco abaixo! Estou todo cheio de espinhos... Fala sério, o sujeito escapa de um acidente de carro e se arrebenta todo ao cair no barranco, não parece uma piada? No dia seguinte, o Sr. T foi ao mercado de bugigangas da cidade e chegou em casa com um monte de lanternas. Ele fez questão de colocar uma no porta luvas do meu carro, outra na gaveta da cozinha, outra no armário e ainda distribuiu uma para cada pessoa da casa. E olha que eu não estou exagerando...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A origem e os meus sonhos

O impacto do filme A Origem na minha cabeça foi devastador, seja pelo visual primoroso ou pela complexidade da história. Absoluto! A minha relação com os sonhos sempre foi estruturante, parece que eu construo e reconstruo os meus dilemas do cotidiano durante os meus sonhos. Muito tempo depois de estar casada com o Sr. T, eu tinha sonhos angustiantes nos quais eu me via na minha casa antiga com meu ex-marido, vivendo como se nada tivesse acontecido. De repente, dentro do sonho, eu acordava e dizia: - Mas eu não vivo aqui, onde está T? O que estou fazendo aqui? O meu ex-marido respondia perplexo, - Você está louca? Você sempre viveu aqui e não conheço ninguém com esse nome! Bom, aí eu acordava de verdade, o coração saindo pela boca e o suor escorrendo pela testa. Era um sonho recorrente que trazia à tona os subterrâneos do meu subconsciente, mas não sei se poderia enquadrar um sonho desta natureza na categoria pesadelo, já que não havia monstros nem mortes. O meu maior medo durante muito tempo foi que a minha história real com o Sr. T não existisse, que tudo fosse apenas um sonho e que eu acordaria novamente naquela vida que eu odiava. Exatamente por isso o filme A Origem é tão próximo da minha realidade, não saber se estou sonhando ou não, é algo recorrente nos meus sonhos malucos. Hoje eu sonho ao contrário, que o Sr. T ainda está aqui e vai entrar pela porta a qualquer momento e eu tenho que explicar como eu tinha sonhado que ele nos deixava depois de uma crise boba de saúde. Nos meus sonhos ele sempre ri da minha história e não dá muita importância para a minha angústia. Talvez seja por isso que eu ainda não consiga me desfazer das coisas dele, e se eu estiver sonhando e ele entrar de novo pela porta? Como vou explicar que sumi com as coisas dele só porque tive um sonho catastrófico?

domingo, 22 de agosto de 2010

Almoço de domingo

Eu passei o ano passado inteirinho trabalhando os finais de semana, estudando para o concurso e terminando a tese de doutorado. Quem cozinhava grandes pratos nos finais de semana era o Sr. T e nós dois tínhamos uma história especial com a arte de cozinhar. Em nossos planos para o futuro estava um restaurante na praia de Pipa, no qual só iríamos cozinhar o que nos desse na telha (os clientes teriam que se adaptar, oras!). Ele fazia uma feijoada maravilhosa sempre preparada na véspera, já tarde da noite, e o cheiro se espalhava pelos corredores do prédio deixando os vizinhos com água na boca. Eu sempre implicava dizendo que ele contratava uma velha cozinheira para temperar o feijão porque era a melhor feijoada que eu já tinha provado na vida. Assim que voltou a trabalhar, o Sr. T fez planos para cozinhar grandes pratos nos finais de semana, aplicando toda a sua imaginação fértil nos princípios da cozinha. Com um pouco mais de sofisticação e acessórios chiques, ele seria quase um gourmet! O último prato que ele cozinhou foi uma carne de sol assada ao vinho com arroz de leite e macaxeira cozida com manteiga. Foi um dos melhores pratos que ele já fez e a prova disso foi que uma amiga da minha filha (que almoçou conosco naquele dia) contou em casa os detalhes do almoço empolgada. No dia seguinte, encontramos o pai dela na padaria e ele fez questão de perguntar a receita do nosso almoço, mesmo tendo me conhecido naquela hora. Hoje fiz uma almoço especial com uma carne que ele tinha comprado e guardado no freezer para preparar um assado especial. O almoço ficou maravilhoso e todas nós lembramos dos almoços do Sr. T. O fato é que a ausência de alguém é muito mais do que um conceito abstrato, é viver as pequenas alegrias do cotidiano sem a presença do outro.

sábado, 21 de agosto de 2010

Aniversário de Dona Mariazinha

A mocinha da foto com o Sr. T é chamada por todos nós de Mariazinha e o "dona" no título do post significa que ela manda em todos nós. Bom, comigo ela manda um pouco menos, mas com o pai era um caso perdido... Desde que ela nasceu foi um caso de amor à primeira vista, e confesso que perdi meu status na vida do Sr. T para ela. É preciso registrar que ele foi pai novamente já beirando os 50 anos, depois de ter dois filhos homens. A divisão do trabalho aqui em casa era ao contrário da sociedade convencional: nos últimos dois anos eu estava trabalhando e fazendo o doutorado enquanto o Sr. T cuidava da nossa casa e de Mariazinha. Os dois viviam juntos o tempo todo, ele conhecia todas as crianças da escola, a colocava para dormir (cantando e balançando no colo, mesmo ela já grande) e se preocupava porque ela não comia bem como ele gostaria. Mariazinha se aproveitava do pai babão, ela o chamava de papaizinha e nas brincadeiras o transformava sempre na filha ou na princesa. Ele perguntava:- Mas eu não posso ser o filho ou o príncipe? - NÃO! repondia ela brava, você é a filha e a vovó vai fazer um vestido para você! Sorte a nossa que o Sr. T não se preocupava muito com a questão de gênero... Hoje é aniversário dela, o primeiro sem a presença dele. Não vamos ter uma festa, mas fiz o bolo que ela queria, organizamos os enfeites juntas e vamos receber a família. Eu espero que o açúcar, os presentes e a presença das pessoas que amamos possa trazer conforto para ela. Acredito de verdade que o Sr. T possa estar em algum lugar bem iluminado para acompanhar como ela está crescendo e ver a carinha de felicidade da nossa filha!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Quem estava lá

A sociedade avalia a importância de quem morreu pelo nível econômico e social das pessoas que vão ao seu enterro. É um coisa meio maluca, uma espécie de homenagem às avessas, sabe? Afinal, para quem partiu e não levou literalmente nada, do que adianta a presença do Coronel Fulano de Tal? Conhecendo bem o Sr. T, sei que para ele só importaria as pessoas invisíveis e é sobre elas que eu quero falar. Não me interessa a presença dos vereadores, dos diretores de escola, ou mesmo as coroas de flores enviadas por deputados ou pelo próprio partido. O que me impressionou de verdade foi a presença do rapaz que vendia jornal em frente a padaria e que veio me consolar dizendo que nunca se importava quando o Sr. T não comprava os jornais porque ele sempre parava para conversar com ele. Ou a presença do travesti que concorreu a vereador com o Sr. T em 1996, com um slogan hilário do qual não me recordo agora. Ou os balconistas da padaria que estavam inconsoláveis e até hoje colocam biscoitinhos no pacote de pão para agradar a nossa filha. São essas presenças que eu faço questão de registrar e me lembrar sempre.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Médico FDP

Você não sabia? Existe uma categoria chamada "médico filho da puta". Eles são especialistas em maltratar os pacientes, ignorar as queixas, os sintomas e também costumam negar socorro a quem precisa. Acredito que durante o tal juramento de Hipócrates (depois substituído pela Declaração de Genebra), os futuros médicos FDP devem murmurar qualquer coisa e fingir que estão recitando o texto correto. Na manhã em que o Sr. T. passou mal, ele pediu socorro ao vizinho que se diz médico aqui no prédio. O sujeito que pensa que é médico negou socorro alegando que estava atrasado para o trabalho. É isso mesmo, ele negou socorro porque tinha que sair para trabalhar como médico! Provavelmente o sujeito deve pensar que ele só é médico quando chega ao local de trabalho. Pois bem, Sr. T. pediu socorro a outro vizinho (que não é médico, e sim formado em Marketing) e o rapaz desesperado com o estado delibilitado dele, o levou para o hospital mais próximo de nossa casa. Horas depois, adivinhem só quem o Sr. T. encontra no mesmo hospital? Sim, o médico FDP! Constrangido porque o Sr. T. fez questão de apontá-lo para os filhos, ele tentou disfarçar a sua falta de caráter, mas era tarde demais. É claro que não acredito que o ato de negar socorro do vizinho-médico-FDP tenha influenciado no desfecho da vida do meu marido. Ele era uma pessoa muito especial para ficar à mercê de alguém tão mesquinho, mas me parece inacreditável que uma pessoa seja capaz de fazer algo assim e seguir vivendo tranquilamente. Dias depois, o médico FDP tentou falar comigo na garagem do prédio, mas eu o ignorei porque não teria condições de perdoá-lo tão cedo. Espero, sinceramente, que o médico FDP tenha tido algumas noites insones e que em algum momento, tenha se lembrado do seu juramento ou da declaração de Genebra: "eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade".

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O excêntrico Sr. T.

Sim, o Sr. T. tinha um visual excêntrico daquele impossível de esquecer. Vou tentar descrever, mas não sei se sou boa nisso. Para começar, ele usava os cabelos compridos trançados, mais ou menos abaixo do ombro. Eram trancinhas fininhas presas com elástico fino nas pontas. Ele levava cerca de seis horas no salão para destrançar os cabelos, lavar, hidratar e trançar de novo. Por isso mesmo ele tornou-se um grande amigo da dona do salão e das ajudantes que trabalhavam lá. O tempo que ele perdia no salão (uma vez por mês) rendia boas piadas entre nós sobre ser metrosexual ou não. Fora o visual cabelão + tranças + barba, a roupa era outro item curioso. Calça cargo camuflada (ou em tons cáqui, bege ou marrom), camisa de malha e botas. Sempre! Quando eu o conheci era pior, porque ele usava uma boina com uma estrela do PT e ficava a cara do Che Guevara. Diz a lenda que ele uma vez se encontrou com uma senhora que foi amiga do Che e a velhinha ficou muito emocionada porque o achou a cara do amigo perdido(se bem que não conheço outras testemunhas que possam confirmar a história). O auge da excentricidade (já vivendo comigo, é claro!) foi quando ele comprou uma espécie de calça de pescador camuflada, apesar dos meus protestos. Bom, ele vestiu a calça, uma bota (meu Deus!) e foi ao supermercado. Quando ele andava em direção à entrada, os taxistas que ficavam estacionados na entrada gritaram: TOPO GIGIO! O mais engraçado é que eu não estava presente, ele me contou o vexame quando chegou em casa e, obviamente, eu quase tive uma crise de tanto rir. Tentei dar o golpe de misericórdia: - Tá vendo? Eu não disse? Agora você vai desistir dessa calça, não é? Resposta:- Eu não! Eu fui até lá e fiquei amigo deles! Ohhhhh....

O primeiro e-mail

Sent: 30, Sunday June, 2002 11:06

Estou online novamente, vou te responder melhor mais tarde... mas sem dúvida a sua ousadia é o que mais me encanta no momento. E sei que posso encontrar muito mais preciosidades em uma "principesca".


Beijos
Eu


Meu amor partiu no dia 30 de junho de 2010, às 11:15h. Realmente, existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia... Eu sempre gostei de Shakespeare, ele nem tanto, mas considerando a sua formação em Direção Teatral, penso que ele devia ter razão.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Não é mera coincidência

Eu poderia listar vários acontecimentos que indicam alguma coisa importante, embora eu não saiba exatamente o que é. Alguns me confortam, outros me entristecem ainda mais. Em alguns momentos concordo com Constantine, os desígnios divinos são uma espécie de piada cósmica da qual os humanos não tem a compreensão necessária para rir. Afinal, qual explicação poderíamos encontrar para alguém que depois de dois anos desempregado, consegue um emprego, cativa as pessoas e dois meses depois vai embora de forma tão repentina? Talvez seja a explicação do chefe do posto da Previdência Social, sem os dois últimos meses de contribuição do último emprego dele, eu não conseguirira o benefício para a nossa filha (outra história surreal que vou contar depois). É claro que eu me recuso a aceitar uma explicação tão pragmática, mas são apenas detalhes diante da minha descoberta mais significativa. Há alguns anos, meu amor imprimiu os nossos e-mails trocados desde o dia em que nos conhecemos, como um livro com o registro da nossa história. Folheando o livro no dia seguinte da sua partida, descobri que ele morreu exatamente na mesma data em que nos conhecemos: 30 de junho, exatamente oito anos depois do nosso primeiro encontro! Pensando que o nosso affair foi como um raio e desde o primeiro dia nunca mais deixamos de nos falar um só dia, percebo que encerramos um ciclo. Parece que a arquitetura das nossas vidas já estava definida, mas sempre vou considerar que a nossa história foi interrompida de forma prematura e desnecessária.

sábado, 14 de agosto de 2010

Hora de partir

Parece um clichê, mas é verdade, um dia você está fazendo planos, rindo, conversando e, no outro, tudo acabou. Sem possibilidade de argumentação, reclamações ou revisão. Não dá tempo para nada, só em filme americano as pessoas conseguem se despedir, pedir perdão, contar o segredo revelador... Não é assim na vida real, aqui não deixam você ver seu marido (mesmo que ele esteja piorando), não existe compaixão ou solidariedade. Quer dizer, existe sim, mas só depois da morte, quando já não adianta mais nada... Eu sempre penso em todos os cenários possíveis na minha vida com caminhos alternativos, mas nunca pensei nesta possibilidade. Revendo a nossa história, posso dizer que não era para terminar assim (ou, pelo menos, não devia terminar assim). Tentamos fazer um funeral discreto, com velório em João Pessoa e enterro rápido, mas foi impossível (tentamos vírgula, eu não tive condições sequer de pensar na palavra enterro). A notícia foi divulgada nas rádios, colocaram carro de som nas ruas e tudo fugiu ao controle. O velório foi no teatro da cidade, alunos e professores viajaram de Campina Grande para prestar uma última homenagem. E que homenagem! Meninos e meninas com 15 anos, abalados, tristes, que fizeram questão de se despedir do professor. Toda a tortura e o peso do momento se dissolveram nas palavras daqueles meninos, no discurso do Diretor de Ensino do IFET e na bela música cantada pela professora de Matemática que trouxe de suas raízes judias um belo poema para fazer a sua homenagem. O maior estresse, além de ouvir e ver pessoas indesejadas, foi a pressão para levar a minha filha ao enterro. Céus, ela não tem cinco anos ainda! Mais uma vez percebo o choque de culturas, aqui a presença de crianças nos enterros é uma prática comum e as pessoas insistiam que se ela não visse o pai iria ter problemas terríveis pensando que foi abandonada. Desde o primeiro momento em que conversei com ela, na mesma hora ela compreendeu que não o veria mais e chorou copiosamente até dormir.Sinceramente, não acredito que materializar uma cena tão terrível a ajudaria em alguma coisa. No meio do caos, ainda é preciso respeitar a crença dos outros e ser firme para que os outros respeitem a sua. Firme, enquanto tudo dentro de você parece desmoronar... Ao final de tudo, a tarefa mais difícil: voltar para casa e enfrentar a ausência e o vazio. O mais surpreendente é que seguimos vivendo, respirando, andando, comendo, porque não há mais o que fazer, é preciso viver.